[[legacy_image_75274]] “Um homem não foi feito para a derrota. Ele pode ser destruído, mas não derrotado”. A frase consta de O Velho e o Mar (1952), livro que valeu ao escritor norte-americano Ernest Hemingway o Prêmio Pulitzer e foi o empurrão que faltava ao Nobel, dois anos depois. Mas também foi o pilar pelo qual erigiu a sua obra e, talvez, a sua morte, por suicídio, há exatos 60 anos. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Ornado por conceitos que se fossem expressos em palavras soariam como ‘macheza’, ‘virilidade’, ‘força’, ‘competitividade’, esse pilar, hoje, é questionado. Por consequência, também se coloca em xeque o espaço que teria essa obra em um mundo que prima pelo (necessário) resgate histórico dos valores femininos e da revisão dos papéis que a mulher pode e deve ter na sociedade. No entanto, para o mestre em Língua e Literatura Rafael Fonseca de Araújo, professor da Unimes, a obra de Hemingway deve ser visitada justamente por causa dessa característica. “Apesar de trazer um universo bem masculino, do homem como protetor e salvador da pátria, ele também traz a questão de como esse papel com que o homem é rotulado pela sociedade, ao mesmo tempo que oprime a mulher, também é fonte de sofrimento ao próprio homem. Vários personagens questionam seu papel, se seriam capazes de se salvar, de resolver a situação”, analisa. Um exemplo dessa fragilidade que, no final das contas, é humana, pode ser inferido do trecho, também de O Velho e o Mar: “Gostaria de ser aquele peixe e trocaria de bom grado a minha vontade, a minha inteligência, para ser tudo o que ele tem”, desabafa o velho pescador Santiago, ao se questionar se estaria à altura da tarefa de pegar o maior peixe da sua vida. Mito androcêntrico Mas os significados nunca são tão simples ou rasos quando se trata de boa literatura. Há nuances. A passagem acima, acrescida desta: “Eu gosto muito de você e o respeito muito. Mas vou matá-lo antes do final do dia”, falando ao peixe, demonstram a admiração diante de um oponente valoroso, quase como nos velhos duelos de honra, em que ‘venciam os melhores’. “Essa grandeza mítica do adversário, do mito cavalheiresco, do guerreiro, é esse universal que está em jogo, sendo movido por um simples pescador cubano”, afirma Adriano Tavares Vieira Dias, professor de Literatura do Colégio Objetivo. “São mitos muito masculinos que permeiam a produção cultural de toda a sociedade. A concepção de ser humano renascentista é unicamente baseada no homem. Não há uma mulher participando dessa construção cultural”, aponta. Esse panorama começou a mudar no início do século 20 e se intensificou a partir dos anos 1950. O próprio processo civilizatório, como compreendido pelo sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990), aponta Adriano, tornou inadequada e, portanto, obsoleta, a ideia do macho. “Ele (Hemingway) era o representante derradeiro de um espírito que vinha sendo anunciado ao longo do século 20 como não sendo mais necessário ou aceito”, diz Adriano. Caricatura Porém, se não é aceito ou necessário, tampouco é esquecido. O espírito ‘macho’ vem sendo encarnado em outras instâncias, seja no endeusamento do militarismo e da arma, na voz impositiva, na criação de inimigos, ou no fomento de preconceitos e misoginia – ‘atributos’ com forte presença atual no cenário político brasileiro e mundial. “Mas é um espírito que hoje surge de maneira caricata, pela degradação de um processo, de algo que já foi importante no passado, mas deixou de ser. Alguém que posa com espírito guerreiro em um mundo onde não cabe mais guerra... é uma caricatura”. Ernest Hemingway tirou a própria vida com um tiro de fuzil, em 2 de julho de 1961 – 19 dias antes de completar 63 anos. Sexualidade Quatro casamentos, safaris na África, touradas na Espanha, pescarias em mar aberto no Caribe, bebedeiras em Paris, lutas de boxe em qualquer lugar, ferimentos na 1a Guerra Mundial. Vida e obra se confundem como talvez em nenhum outro escritor. Mas se o macho das histórias continua intocável, o de carne e osso, nem tanto. Uma biografia de 2017, de Mary Dearborn, inédita no Brasil, sugere que a ‘hipermasculinidade’ e a vida aventureira eram uma fuga de sua verdadeira orientação sexual. O livro revela a fascinação do autor pela androginia. “Foi indubitavelmente queer (de gênero ambíguo)”, disse a biógrafa em uma entrevista ao site do El País, na época do lançamento. Na mesma entrevista, lembra do personagem David Bourne, de O Jardim do Éden, que pede à mulher que corte os cabelos bem curtos e depois o penetre com um consolo, algo que teria ocorrido na vida real do escritor. “Essas fantasias não falam de homossexualidade, mas em adotar o papel feminino no ato sexual”.