Seres Humanos (e a Inteligência Artificial) é o 39° álbum da carreira do cantor e compositor: crítico da hipocrisia e dos rumos humanos (Reprodução Instagram) Se uma obra de arte transmite ideias, sentimentos, crenças ou emoções, também carrega uma finalidade crítica ou transgressora. Na Música Popular Brasileira, Odair José foi, e continua sendo, um dos maiores críticos da hipocrisia social – por isso, tachado também de transgressor. Em seu mais recente álbum, Seres Humanos (e a Inteligência Artificial), o 39° da carreira, o cantor e compositor de 76 anos ressurge com 13 músicas inéditas, pautadas por uma inquietação: o ser humano caminha para o abismo da involução. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! “Estamos caminhando para o abismo da involução. Você toca em feridas que as pessoas não querem que se toque”, afirmou ao apresentador Marcelo Tas, no programa Provoca, na TV Cultura. Para A Tribuna, Odair afirma: “A IA é uma verdade que veio para ficar, não há como ignorá-la, nem tirá-la de segmento algum”, postula. A involução de que fala Odair não está na tecnologia em si, mas no uso que se faz dela. É disso que se trata o novo álbum – ironicamente, quase todo arranjado e gravado em programas de inteligência artificial. “Independente de ter gravado ou não em IA, traria o mesmo tema no álbum: a nossa relação com a tecnologia”. Escolhas Tudo começou no início de 2023, quando Odair e o produtor e multi-instrumentista Júnior Freitas se reuniram para criar o álbum Seres Humanos. A princípio, os dois fariam tudo: os arranjos e tocariam todos os instrumentos nas canções. “Um dia, ele (Júnior) chegou: ‘escuta isso’. Era a canção Submisso, a primeira a ficar pronta (do álbum). Era a mesma música, mas estava diferente”. O produtor havia criado um arranjo executado pela IA. Entre outras coisas, um baixo acústico que não existia no original humano. “Eu então disse: ‘vamos fazer tudo por IA’. Ele: ‘tem certeza?’. ‘Tenho’. Tem coisas que a IA não faz melhor que o músico humano. O que ela não fez, ficou”. Nascia aí Seres Humanos (e a Inteligência Artificial). Apesar de acabar se impondo e constar no título do trabalho, a IA é apenas um dos tópicos da inquietação de Odair. Como ele mesmo já revelou, suas composições são fruto de observações da vida, do exterior, muito mais do reflexo de uma jornada interior. Nesse sentido, a involução a que se refere abrange a forma como nos relacionamos hoje com a tecnologia – da qual a IA é apenas uma das facetas. “As pessoas estão entregando suas vidas na mão da tecnologia”, afirma. “Por exemplo, as pessoas estão abduzidas pelo celular: vão num show e nem assistem, ficam lá apenas gravando”. Sem crítica, mas análise Odair se debruça sobre a tecnologia em geral, e sobre a IA em especial, de uma maneira acrítica. Ele tateia, observa, extrai sentido e questionamento. Como nos versos da canção Seres Humanos, que abre o álbum – música de letra declamada pela própria IA: “Pra consertar o errado/O caminho certo/Talvez seja mesmo/O fruto proibido”. Ou seja, tudo é uma questão de responsabilidade, que é toda dos seres humanos, sobre o seu destino. É preciso, assim, quebrar ciclos. Como ele canta em Repetições: “A história se repete/Só muda o tempo e o lugar/O diabo se diverte vendo a gente pensar”. Devemos, então, deixar de pensar? Não, pelo contrário: a qualidade do pensar, indissociável do coração, é que derrota os nossos ‘diabos’. “A tecnologia é maravilhosa em si. Tudo são escolhas: o uso que se faz é nosso. E o que nos torna humanos? As emoções, que eu acho, a máquina nunca vai ter”. Questionamentos Odair José tem 52 anos de carreira. Ele se lançou na música como cantor e compositor romântico, mas não demorou para temas sociais começarem a surgir em suas letras. Ainda em 1973, seu segundo álbum traz o hit Uma Vida Só (Pare de Tomar a Pílula), censurada pela ditadura militar pelo suposto entendimento de que a canção fazia propaganda contrária à campanha contra a natalidade do Governo Federal, que incluía a distribuição da pílula. “Eu trouxe a questão da pílula, do uso; imagine que uma música iria ser contra? (a campanha contra a natalidade)”, disse Odair. Logo a seguir, Deixa Essa Vergonha de Lado escancarou a situação precária das empregadas domésticas no Brasil. Em 1977, lançou aquele que é seu álbum mais controverso: a ópera rock O Filho de José e Maria, um mosaico em que cada faixa conta, em ordem cronológica, a história de um Jesus Cristo contemporâneo, que coloca em dúvida a própria sexualidade. Aos 33 anos, ao assumir a sexualidade, passa então a viver em plenitude e feliz. O álbum que quase lhe rendeu a excomunhão da Igreja e foi execrado pela crítica é hoje considerado uma obra-prima.