[[legacy_image_339473]] A uma semana da festa do Oscar, uso este espaço para falar do mais desagradável e incômodo dos filmes indicados ao principal prêmio do ano: Zona de Interesse. O filme britânico é dirigido por Jonathan Glazer, inspirado vagamente no livro de mesmo nome de Martin Amis e se propõe a contar duas histórias, uma delas visual, em primeiro plano, e a outra apenas sugerida por ruídos ao fundo, tiros, gritos e uma constante fumaça vinda das chaminés da construção ao lado. Nunca, em momento algum, o interior do campo ou o que ocorre lá é mostrado. O filme é construído como um drama frio e distante, extremamente competente em retratar o diabólico ridículo da vida da família Höss. Eles elevam o conceito de viver em uma bolha à potência máxima. Suas vidas giram em torno de pescarias e banhos nos belos lagos da Polônia, no dia a dia da casa cheia de empregados e no pequeno pedacinho de céu da senhora Höss, seu jardim repleto de vida: flores de todos os tipos e abelhas, lugar que é palco para boa parte das reuniões e festas familiares. Aos poucos, outros elementos vão nos dando uma ideia mais clara do que está ocorrendo ali. Roupas que chegam para serem divididas entre os empregados e a família, incluindo um casaco de pele que fica com a dona da casa. Um perfume francês que a mulher usa e, quando o marido diz que está cheirosa, ela imita um porco e cai na gargalhada. O marido trabalha no imóvel vizinho e às vezes faz reuniões na sala de estar da própria casa. Logo no início, recebe um grupo de engenheiros que vem lhe apresentar o projeto de fornos crematórios que podem ser usados de forma ininterrupta: enquanto um está esfriando, transfere o calor para o que fica ao lado, permitindo muito mais eficiência nos negócios. É desta forma, sem emoções nem espaço para sentimentalismos, que somos apresentados à real face da família Höss: o marido é o comandante do campo de concentração de Aushwitz, responsável pela eliminação de milhões de prisioneiros judeus durante a Segunda Guerra. Cada um lida com a questão de uma forma. As crianças, claro, são aparentemente alheias a todo o horror que se passa bem ao lado (embora pelo menos uma cena demonstre que eles sabiam o que acontecia). A mãe, que se apresenta como Rainha de Aushwitz, usa as cinzas produzidas ao lado para adubar suas flores. Em nenhum momento há qualquer traço de culpa, remorso ou questões de consciência. Tudo é tratado como trabalho, como se o sr. Höss fosse o competentíssimo gerente de RH que fornece mão de obra - escrava - às grandes empresas alemãs da época. Tudo em Zona de Interesse é construído para causar horror e asco. E é muito forte a reflexão que o filme provoca a respeito de vida e morte e de como gente comum é capaz de aceitar e conviver com os horrores desde que as vítimas sejam “os outros”, até o ponto em que elas próprias acabem se tornando monstros. Limpinhos, educados, refinados, cultivadores de flores, mas… monstros! Um elenco competente - a atriz Sandra Hüller está em outro dos indicados, Anatomia de Uma Queda - e uma trilha sonora que nos coloca dentro do cenário grotesco do filme fazem desta produção algo inesquecível, por mais que se queira. Ao final de tudo, ainda fica a questão: será que o que vivemos hoje é tão diferente? Indiferença, ignorância e banalidade, afinal, continuam dando margem para que todo tipo de horror aconteça. Um filme horroroso, mas necessário.