[[legacy_image_292558]] Para bom entendedor, meia palavra basta. É o que diz o ditado. Como profissional de comunicação, uma das áreas em que atuo, não posso jamais levar isso ao pé da letra. Anos de estudo e atuação me deram a certeza de que a mensagem é metade de quem fala e metade de quem ouve. Por mais didática, coerente e objetiva que seja a maneira como me comunico, meu interlocutor sempre decodifica a mensagem a partir de suas crenças, educação, experiências de vida. E de suas verdades convenientes, aquelas cuja narrativa é uma defesa do que interessa apenas a si mesmo. No final de julho, publiquei neste espaço uma crônica que criticava a ideia de cavalheirismo. Indiquei a relação de gestos considerados cavalheirescos, como portas de carros abertas e cadeiras de restaurantes puxadas para uma mulher se sentar, como comportamentos típicos masculinos de relações que, em determinado tempo, se tornavam abusivas e violentas. Não sou eu quem diz. São as histórias, como uma que eu trouxe em destaque e tantas outras que evidenciam essa correlação assustadora. Na minha escrita, destaquei também quantos homens gentis me cercam, que me ensinam todos os dias o valor do companheirismo e do acolhimento. Eles podem abrir a porta de um carro, me presentear com flores (que, aliás, adoro), mas jamais farão disso uma moeda de troca. Mais do que isso: uma moeda de obediência. Aqui está o pulo do gato do incômodo de homens que se sentiram atingidos pelo meu texto. Qual foi a verdade inconveniente que expressei que mexeu com os brios de alguns? Não adianta ficarem aborrecidos com a cronista. Em vez disso, perguntem a suas companheiras se depois de 10, 20, 30, 40, 50 anos juntos, nos quais vocês foram ou são cavalheiros, a parceira se sentiu respeitada. Se para jamais pagar a conta de um restaurante, ela pagou um preço caro de jamais poder opinar? Se ouvir “cala boca” foi uma constante? Se sentiu-se intimidada, amedrontada, diminuída? Se abriu mão dos próprios sonhos para ser escada dos seus? Se já não reconhece quem um dia foi por abrir mão da própria identidade, temendo ser deixada ou machucada? É importante compreender que, quando se fala de comportamentos agressivos, não estamos apenas falando de violência física. A violência emocional, por exemplo, é sobre humilhação, desvalorização, deboche, desprezo pelas realizações e todo tipo de atitude que atinge a autoestima de uma pessoa e a faz até mesmo se sentir culpada pelo que não é. Já a violência verbal caracteriza-se por insultos, xingamentos, ameaças, chantagens, piadas que magoam. Pronto. Minha falha, de esquecer que cada um decodifica a mensagem a partir de questões íntimas foi corrigida com as explicações acima. Acreditei que estava clara a ideia do texto anterior. Talvez não. Apesar de ser curioso que nenhuma mulher tenha se queixado do que escrevi. Claro, o entendimento delas da mensagem se dá pelo que vivem ou viveram. Seja um cavalheiro, se assim desejar. Mas seja, principalmente, um homem com quem realmente vale a pena dividir a existência. E não aquele que, quando a mulher enviúva ou se separa, ela, finalmente, se percebe leve, livre e feliz em recomeçar.