[[legacy_image_359520]] Filmes do veterano diretor alemão Win Wenders são quase um gênero à parte e Dias Perfeitos, o representante do Japão no Oscar 2024, não foge à regra. Aos 78 anos e com a maturidade que só é atingida com a idade, ele faz uma verdadeira declaração de amor a Tóquio - cidade que já visitou em outros filmes - e também à beleza e delicadeza dos pequenos atos do cotidiano e da contemplação emocionada da vida simples. Somos, logo de cara, apresentados ao protagonista, Hirayama, um homem cujos dias são sempre idênticos. Ele acorda cedo, cuida das plantas de casa, sai para trabalhar, pega uma lata de café gelado na máquina ao lado de seu prédio e passa o dia limpando os banheiros públicos de Tóquio (criados para os Jogos Olímpicos de 2021), enquanto ouve clássicos dos anos 60 e 70, em fitas k-7, no som de sua van. Dia após dia, sem variações. Parafraseando a música do Chico Buarque, “todo dia ele faz tudo sempre igual”. Hirayama não é mudo, mas fala muito pouco e só quando é obrigado a interagir com seu imaturo companheiro de trabalho ou para pedir sua refeição, sempre a mesma, no restaurante que frequenta todas as noites antes de voltar para casa. Parte de suas emoções é expressada na fisionomia do excelente Koji Yakusho e nas canções de Nina Simone, Lou Reed, The Kinks, Animals ou Velvet Underground que embalam seus momentos no trânsito. Há alguns momentos em que algo a mais acontece e afeta esta rotina tão cuidadosamente preservada por Hirayama. Quando o colega de trabalho pede dinheiro emprestado para sair com a namorada, por exemplo. Ou quando a namorada do amigo o procura. Ou ainda no jogo da velha remoto que ele disputa, silenciosamente, com o frequentador de um dos banheiros que ele limpa. Outro fiapo de história se dá quando sua sobrinha foge de casa e pede abrigo em sua casa - e é neste “episódio” que sabemos um pouco mais de seu passado e que ele optou por uma vida simples apesar de ser de família rica, após problemas com o pai, que ainda está vivo mas muito doente. Quando a irmã vai buscar a filha, pergunta a ele: “você está mesmo limpando banheiros?”. E ele, feliz, responde que sim. Mas nenhum destes caminhos narrativos dura mais do que deveria. O filme é, de fato, sobre a delícia de viver uma vida contemplativa, na qual há tempo para guardar registros fotográficos das árvores que encontra pelo caminho, ler os livros de mistério de Patricia Highsmith ou, simplesmente, dirigir pelas ruas de Tóquio, o que ele faz com um evidente prazer. É óbvio que Hirayama está fugindo de algo, seja da própria família ou de algum evento do passado. Talvez as músicas que ele ouve ou os livros que lê dêem alguma pista deste passado, sem falar em seus sonhos em preto e branco, mas não me preocupei em tentar ligar estes pontos, isto se torna pouco importante diante da potência da simplicidade de vida que ele optou por viver. Tecnicamente o filme é um espetáculo. Wenders optou por imprimir um estilo que homenageia o grande Yasujiro Ozu e a fotografia é magnífica. E tudo também se torna ainda mais interessante quando descobrimos que foi a rebeldia de Wenders - que foi contratado apenas para fazer um documentário sobre os banheiros públicos de Tóquio - que tornou possível contar esta história na forma de ficção e em um filme que cativa pela simplicidade e sensibilidade. Dias Perfeitos está disponível em um streaming pouco popular, o Mubi, especializado em cinema de arte e que, além de outros filmes de Wenders, tem um acervo muito bom de clássicos e de filmes de outros países.