[[legacy_image_318304]] Você já viu a flor do maracujá? Sabia que também é conhecida como ‘Flor da Paixão’? Para descrevê-la aos conterrâneos, os primeiros europeus na América se valeram da cultura católica, relacionando detalhes da planta à vida e morte de Jesus Cristo. Essa estratégia, aparentemente banal, permitiu não apenas uma melhor identificação por parte dos colonizadores, como também ajudou a criar uma empatia do público para com a planta. Hoje, porém, muitos cientistas estão particularmente preocupados com o que consideram uma falta generalizada de conhecimento em relação ao mundo vegetal. Presentes ausentesPlantas não se movem, não emitem sons (não que possamos escutar – veja quadro na página) e muitas não desabrocham de forma tão marcante como os maracujás. Diante de quase 400 mil espécies no mundo, essa ‘cegueira vegetal’ restringe nosso saber a um punhado delas – mesmo hoje, quando já é possível identificá-las por meio de aplicativos. Até a diversidade urbana, enfatizam os pesquisadores, é como um manto verde indistinto. Quem sabe identificar a árvore em sua rua ou as plantas até mesmo no jardim do próprio prédio? Situação semelhante se dá com a alimentação. Um ser humano irá passar a sua vida comendo não mais do que 50 diferentes espécies vegetais. Muito poucos irão além disso (faça uma lista, se duvida). Assim, apesar de tudo que nos cerca, provavelmente morreríamos de fome em uma floresta. Identificar algo que fosse terapêutico então, seria quase uma roleta-russa. DesconhecidoDesnecessário dizer que não estaríamos aqui se não fossem as plantas. Mas fundamental ressaltar que uma vez aqui, não teríamos chegado aonde estamos sem o que sabemos e obtemos delas. Apenas para citar a Medicina, quase 30 mil espécies de plantas são a origem de fármacos cotidianos, seja para aplacar uma dor de cabeça ou lidar com tumores. Dessa forma, muitos cientistas insistem que é preciso tornar a diversidade da flora em um capítulo preponderante na nossa educação, correlacionando essa diversidade com o seu papel crucial na nossa qualidade de vida. Seria quase como recuperar um conhecimento perdido. Qualquer um de nós, por exemplo, pensaria duas vezes em exterminar um vegetal sabendo dos benefícios que ele gera. E, sabendo disso, como reagiríamos diante das muitas plantas que ainda sequer pesquisamos? Voz vegetalPesquisadores israelenses confirmaram que as plantas reagem sonoramente à estímulos externos, por meio de estalos ou cliques. Isso ocorre quando são submetidas a algum tipo de estresse, como a falta de água, ou quando são podadas, entre outras. Por serem emitidos em uma frequência muito alta, ouvidos humanos não captam. Os cientistas especulam que outras plantas e animais se orientam por esses sons. Um exemploHá alguns anos, conheci o trabalho da professora Nilva Campina em uma escola de Cubatão. Ela utilizava uma planta, a tradescantia palida (seu nome científico), em sala de aula. Essa plantinha, comum na região, reage aos poluentes atmosféricos e os alunos a utilizavam como uma espécie de sentinela para alertar sobre a qualidade do ar. Levavam mudas para casa e monitoravam suas reações. Muitos já viram um exemplar ou até mesmo possuem um vasinho com a dita cuja em casa, sem imaginar tal característica. A tradescantia, apesar de sua intrínseca beleza, é também para muitos uma anônima em meio a centenas de milhares de espécies. Talvez, só venha a ser citada se um dia integrar o rol das ameaçadas de extinção e, mesmo assim, nem provoque qualquer sentimento de perda. Em tempo: o nome popular da tradescantia é coração roxo.