[[legacy_image_248170]] Com o tempinho a mais que o Carnaval proporciona, a dica de hoje vai ser tripla: um livro e suas duas adaptações para o cinema. Trata-se de Um Homem Chamado Ove, que rendeu um longa sueco de mesmo nome, indicado ao Oscar de Filme Internacional em 2017, e O Pior Vizinho do Mundo, filme em que quase tudo – do layout do cartaz ao título em português – sugere uma comédia. Contudo, não é. E é importante saber disso, porque deve-se estar preparado para a história, que pode ser pesada para alguns: um homem amargurado pela morte da esposa, que tenta o suicídio de diversas formas e que tem nas visitas ao túmulo da falecida mulher seus únicos momentos de doçura. Seu dia a dia – que inclui reclamações nas lojas em que compra, o controle quase militar de sua vizinhança e reclamações quase generalizadas sobre qualquer um que ousa cruzar seu caminho – é interrompido pela mudança, para a casa em frente à sua, de uma barulhenta e alegre família de imigrantes. Essas pessoas invadem sua privacidade de todas as maneiras possíveis, seja levando presentinhos gastronômicos ou pedindo ajuda para cuidar dos filhos. Estão sempre lá, gritando e batendo na porta e, em geral, atrapalhando mais um plano de suicídio. Aos poucos, esse contato com a família de vizinhos – em especial com a mãe, com quem desenvolve uma forte ligação, quase de pai e filha – vai suavizando o temperamento do protagonista e sua visão de mundo, o aproximando novamente de amigos que ele havia negligenciado e até – o cartaz antecipa – arranjando um gato de estimação. O filme mistura o presente do protagonista com cenas da juventude e maturidade, com foco especial em sua história de amor. O momento em que conhece a garota de sua vida, o primeiro beijo, o impulso de confiança que essa relação lhe deu para conseguir se formar na universidade, o casamento, as pequenas tristezas e as grandes tragédias que pontuaram a história do casal. Uma curiosidade: na versão norte-americana, o personagem de Tom Hanks é vivido, na juventude, por seu filho na vida real, Truman Hanks. Alguns classificaram como humor ácido e cheguei até mesmo a ouvir risos na sala de cinema. Não consigo ver graça na história de um homem que obviamente tem problemas sérios desde a juventude para se relacionar com a sociedade, que teve em sua esposa seu porto seguro e que, com sua morte, viu seu mundo perder toda a cor e ser pura desesperança. Ele é um homem triste e em completo desequilíbrio e nem as mudanças que o contato com o mundo lhe causam conseguem torná-lo menos trágico. Descobre-se cedo que, além da vontade de não existir, o homem sofre de uma doença congênita que, eventualmente, vai lhe tirar a vida. As três histórias – do livro e dos dois filmes – têm poucas diferenças importantes entre si. No livro e no longa sueco, o título é o mesmo, Um Homem Chamado Ove, enquanto na versão norte-americana, o personagem de Tom Hanks se chama Otto. Na nova versão, a família é norte-americana/mexicana, enquanto no original, de 2015, é formada por iranianos. O livro de Fredrik Backman, escritor e jornalista sueco, é lançamento da editora Rocco e tem 320 páginas. Está nas melhores livrarias, com interesse renovado graças ao filme. A primeira adaptação para o cinema pode ser vista no streaming Apple TV+ e no Google Play, em versão legendada. Já o filme mais recente, com Tom Hanks, pode ser conferido nas salas de cinema da Baixada Santista e também na Capital. Sendo bem superficial, é possível lembrar de outros longas. Forrest Gump, por exemplo, caso a vida fosse uma caixa de bombons amargos. Ou até o desenho animado Up – Altas Aventuras, com foco no luto e nas reflexões pós-perda. Um bom filme, que emociona e, se visto com a expectativa correta, cumpre bem o seu papel!