[[legacy_image_181640]] Tenho pensado nas pessoas que passaram pela minha vida. Tenho pensado principalmente nas pessoas que se foram para sempre. Amigos que partiram e que, neste mundo, já não irão mais comigo a passeios, a caminhadas na praia, que não assistirão a filmes, darão risadas de tirar o fôlego, farão comentários sobre os absurdos da política e da maneira como a sociedade tem se comportado – ou sobre amenidades e bobagens tão engraçadas, mas nem por isso menos importantes para o equilíbrio da vida. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Venho pensando também em alguns dos meus familiares que já estão do lado de lá. Duas de minhas tias tiveram papel importante na minha infância, marcando-a com memórias de afeto e graça. Também tenho pensado nas minhas avós. Minha avó Elisa foi uma baiana sempre cheia de carinhos para distribuir, com bom humor, sorrisos, musicalidade e alegria. Minha avó Salvina foi uma pernambucana que, em meio a tantos netos, não teve tempo de criar em mim lembranças numerosas, mas ainda assim registrou na minha mente cenas inesquecíveis. Mesmo hoje posso fechar os olhos e ver seus dedos correndo pelo terço, enquanto ensinava-me orações que me pareciam bonitas em sua boca, apesar de eu não ter menor ideia do que significavam. A religião sempre permeou a vida de ambas. Era fácil observar como o cotidiano delas ganhava leveza à medida que compreendiam mais e mais aquilo que as orações diziam. Essas mulheres me ensinaram que é preciso olhar para todos os seres humanos com um pouco mais de compaixão a cada dia, e que há um tipo de brilho na sabedoria que só o tempo é capaz de fazer crescer em nós. Ele nos dá aquela paz no olhar que tantas vezes admirei em pessoas mais velhas. Hoje, vejo meus pais tornarem-se a continuação dos meus avós: cada um a seu modo vai assumindo essa pele, absorvendo em sua bagagem uma mistura de passado, presente e futuro. É curioso observar a construção constante de um legado que dia a dia faz aumentar no olhar um certo brilho de certeza sobre algumas coisas do mundo, e de tranquilidade diante das incertezas, que só o tempo é capaz de trazer. Vejo os bebês da família que carreguei no colo, e que troquei as fraldas, tornarem-se, agora, adultos. Alguns já beiram os 30, definem seus caminhos, tornam-se pais. Tenho a sensação palpável de que a vida passa muito rápido, escapa de verdade, assim como todos os clichês já haviam me advertido. Percebo, hoje, que eu não me preparei para isso. Acho que ninguém se prepara mesmo. O tempo realmente nos dá e nos tira muito e é preciso exercitar o otimismo para que as memórias felizes tomem mais espaços e marquem a nossa vida mais intensamente do que as memórias tristes. A vida sempre dá um jeito de seguir, estejamos nós dispostos a caminhar ou não. A única saída possível é a porta da frente, que sempre se abre diante de mais um ciclo.