[[legacy_image_328618]] Todo o seu dia, do acordar ao dormir, é agora um domínio público. Tudo o que você faz consta imediatamente em seu perfil on-line. Nessa vida digitalmente auditada, os algoritmos vão construindo uma imagem sobre a qual não se tem controle, mas que dita seu status. O enredo acima é um futuro possível. Hoje, como biografias ambulantes, estamos diuturnamente escrevendo a nossa microhistória, só que agora em infinitas páginas virtuais, por vezes inconscientemente. Para os cientistas do futuro, seremos a primeira geração a dispor do nosso cotidiano em minúcias sem precedentes, permitindo, até mesmo, reconstruir o dia-a-dia de um indivíduo. Se não, vejamos: você sai de casa e é gravado por uma câmera. Entra em um prédio, tem o rosto escaneado e ganha um crachá. Usa um carro por aplicativo. Paga o mercado com cartão. Assiste à tevê a cabo e aos filmes por streaming. E ao lado, onipresente, o telefone celular. HieróglifosSupondo que esses rastros em forma de dados sejam preservados, como seremos interpretados daqui a mil anos? O que acabará por caracterizar aqueles que viviam lá no final do primeiro quarto do século 21? Nosso passado, enquanto espécie, produziu relatos fartos sobre impérios transnacionais, viagens desbravadoras, descobertas, fracassos. São inúmeras as fontes, das tabuletas sumérias aos hieróglifos egípcios e maias; das sagas nórdicas aos diários de bordo dos navegantes, dos ideogramas chineses aos manuscritos persas, gregos e tantos outros, heróis e vilões cujos nomes decoramos e adjetivamos para o bem ou para um mau exemplo. Porém, saber como seria o cotidiano de um grupo, uma família, seja na Mesopotâmia dos babilônios, no Egito dos faraós ou na Roma dos césares, ainda é fragmentado, tortuoso, por vezes indefinível. PiadaOcorre que essa parte obscura da história é tão surpreendente quanto as desventuras de qualquer monarca. Em muitos casos, é de cair o queixo. Aliás, atualmente usa-se outro termo, impublicável, para demonstrar surpresa, espanto. O queixo saiu de cena. Como surgiu essa piada? Às vezes nem nós descobrimos. Até agora, porque em um mundo rastreável, até mesmo expressões curiosas como essa serão legadas por meio das interações e divagações aportadas à rede. Aos interessados em saber como vivíamos, a intimidade estará em uma enxurrada de bits e bytes, uns e zeros. Os anônimos cidadãos do passado, sem rosto ou voz, serão substituídos por um verdadeiro diário, do nascimento à morte. JulgamentosMas, apesar dessa absurda quantidade de microinformações, não nos livraremos, necessário frisar, do risco de terminar erroneamente interpretados, alcunhados com algum termo pejorativo ou asqueroso. É que qualquer comparação, qualquer constatação, sempre se apoiará em parâmetros. Assim, nas salas de aula do ano 3024, se ainda existirem, estarão nos olhando a partir de suas realidades e valores. E nos julgando. Ah, isso sem dúvida. Não que eu elimine a possibilidade de uma evolução social. Só tenho dúvidas se o humano, lá do futuro, não continuará sendo rápido em julgar e paquidérmico em se desculpar. Errei?! FuturosHaveria infinitos universos, propõem alguns cientistas. Assim sendo, presumo, infinitos destinos. Em algum lugar você é trilhardário. Se é o que busca, regozije-se. Se não, imaginar as variáveis é muito tentador. Como seria o seu mundo? O que você eliminaria? Aranhas, guerras, doenças, gente de bem? Bom, caso você queira se embrenhar nas cortinas do tempo e refletir sobre nossa herança, mas quer fazer isso sem recorrer às teses basilares ou hermenêuticas, dois romances podem agradar. Sobre mundos infinitos, A Terra Longa, da editora Bertrand Brasil, conta que um dia, inexplicavelmente, passamos a poder viajar por infinitos planetas Terra. Imagine os desdobramentos disso? Já o segundo, Qualityland, editora Tusquets, descreve, com humor, a vida futura ultra-hiper-mega conectada, onde um andróide é candidato a presidente. MicroUm ramo recente no estudo da história, surgido na década de 70 do século passado, é a microhistória. Ela resgata o que alguns chamam de excluídos. Em outras palavras, é o cotidiano de uma sociedade. Um exemplo dessa abordagem é o livro História da Vida Privada. Outro exemplo é O Queijo e Os Vermes, ambos da Cia das Letras. Nele, o autor, Carlo Ginzburg, nos oferece um vislumbre da vida de um produtor de farinhas do século 16, acusado pela Santa Inquisição por suas ideias constrangedoras.