[[legacy_image_265160]] Quem tem mais de 30 anos certamente se lembra do clássico desenho da Disney do Pateta motorista. Aquele em que o sujeito era um perfeito cavalheiro e vizinho exemplar até que entrava no carro e se transformava em um monstro furioso e perigoso. Em Treta, estreia da Netflix, conhecemos Amy e Danny, dois imigrantes asiáticos que moram em Los Angeles (EUA) e que estão vivendo nesse limite – não apenas de sua paciência, mas de sua sanidade. A vida de ambos está longe de ser o que sonharam. Danny se encontra à beira da falência como empreiteiro, tem problemas de relacionamento com a família e vive uma crise muito pessoal de fé em si mesmo e na humanidade. Amy até tem uma vida um pouco mais equilibrada financeiramente, mas vive um casamento cheio de frustrações com um marido que não admira. E como o Pateta do desenho, quando estão em um carro, sua leitura do mundo, já bastante prejudicada pela frustração, se potencializa. É em um momento assim, na frente de uma loja de departamentos, que eles quase batem seus carros. O “quase” não impede um episódio lamentável com buzinada ininterrupta, xingamentos, aceleradas ameaçadoras, dedo do meio em riste e uma perseguição desenfreada – e como se não houvesse amanhã – pelas ruas da cidade, o que termina sem que os dois sequer vejam o rosto um do outro. Ambos encaram esse incidente, porém, como uma chance de botar seus monstros para fora e mostrar seu lado mais sombrio e violento. Danny anota a placa do carro e, dias depois, vai até a casa de Amy sem se identificar, oferecendo seus serviços de empreiteiro. Durante a visita, pede para usar o banheiro e urina não apenas por todo o lugar, mas também pelo resto da casa de sua inimiga. Aí, foge de lá e Amy anota a placa do carro dele, o encontra na porta de uma balada e picha o veículo todo com frases como “sou um fracassado”. Enfim... De vingança em vingança, o desentendimento por causa de uma batida que nem aconteceu vai tomando uma proporção inimaginável e catastrófica, afetando não apenas os dois envolvidos, mas também suas famílias e pessoas próximas e mudando as vidas de ambos de forma definitiva. O final é muito impactante e algumas pessoas precisaram até daquelas clássicas matérias “entenda o final de...”. Se quiser, procure que tem um monte de interpretações pela internet. Gostei demais da estética da série, dos roteiros e principalmente da atuação da dupla central: o sul-coreano Steven Yeun (Walking Dead e Não! Não Olhe!) e a maravilhosa Ali Wong, americana de São Francisco e atriz de filmes como Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa. São dignos de vencer Globo de Ouro, Emmy e todos os outros prêmios da indústria. A atuação é o ponto alto de uma produção que funciona muito bem como espelho do momento que vivemos, em que ninguém tem pavio e todos estão sempre à beira de um ataque de nervos. E, claro, fica uma reflexão final: todo grande ódio esconde um grande amor! Pense nisso!