[[legacy_image_156978]] A historiadora Susan Strasser, autora do livro Desperdício e Desejo: Uma História Social do Lixo, diz, em suas palestras, que a sociedade sofreu “um abalo sísmico” quando a produção em massa de bens de consumo se tornou realidade. “Até o final do século passado, as famílias não sabiam o que era uma lata de lixo e tudo o que era possível reaproveitar era reaproveitado várias e várias vezes”, diz a pesquisadora norte-americana. Mas, em pouco tempo, a “sociedade reutilizável” praticamente desapareceu. No seu lugar, surgiu a figura da “sociedade descartável”. E esta, curiosamente, adotou para si o princípio da reciclagem. Funciona assim: consumimos, jogamos fora e reciclamos – só que não. Os plásticos, os mais insidiosos de nossos descartes diários, têm alcance planetário. Estão na alta atmosfera, nas mais abissais profundezas do oceano, na placenta humana... E só tende a piorar. A não ser que se alcance um inédito pacto global, um tratado que envolva desde fabricantes a consumidores. Conferência da ONUEssa proposta foi debatida e aprovada no fim da semana passada, quando centenas de países se reuniram no Quênia, durante a 5ª Conferência de Meio Ambiente da Organização das Nações Unidas (ONU). Um dos principais conceitos é voltar as atenções para onde tudo começa, ou seja, para a concepção do produto. Em outras palavras, um bem de consumo já deve nascer amigável ao meio ambiente. Ao lado dessa pequena, porém decisiva mudança, também se propôs a eliminação de produtos desnecessários, evitáveis ou problemáticos, entre eles os utensílios de plástico de uso único, como sacolas, copos e talheres. Ainda se pede que sejam removidos os aditivos perigosos, como o ftalato, que pode ser cancerígeno e provocar mudanças nos sistemas reprodutivos e hormonais. 80% a menosUma vez alcançado tal objetivo, acredita a ONU, o volume de plásticos que entram em nossos oceanos seria reduzido em mais de 80% até 2040, provocando uma queda de quase 60% na produção de plástico virgem. Para pesquisadores como Susan Strasser, reordenar a cadeia produtiva e a relação do ser humano com os seus resíduos é um caminho sem volta. Agora, o novo Tratado do Plástico será finalizado até o ano de 2024. “Esse é um momento histórico”, afirmou Inger Andersen, diretora-executiva do programa da ONU para o Meio Ambiente. De alto a baixoDefinitivamente, não há mais lugar no planeta isento de resíduos plásticos. Um estudo publicado na Suíça, no início do ano, demonstrou a presença de micropartículas plásticas a mais de 3 mil metros de altitude, sendo levadas por milhares de quilômetros, pelos ventos. Outro estudo, mais antigo, já havia obtido a mesma constatação, só que nas Fossas Marianas, uma área com 11 mil metros de profundidade no Oceano Pacífico. Lá, encontrou-se desde sacolinhas a utensílios de uso único, como talheres, além de um número incontável de fragmentos. Nos crustáceos que vivem nessas regiões abissais, cientistas detectaram a presença de PCB, um composto cancerígeno presente no plástico. Uma engenharia difícilReciclar não é apenas separar em casa os resíduos e destiná-los corretamente. Os produtos precisam ser criados pensando em facilitar esse processo. Um exemplo são os computadores. Na Universidade de São Paulo (USP), a professora Neuci Bicov demonstrou que, para reciclar um computador, são necessárias mais de 15 ferramentas diferentes. Há casos, inclusive, em que o desmonte de um eletroeletrônico depende de ferramentas criadas pelo fabricante. Isso gera custos e até inviabiliza o processo. [[legacy_image_156979]] Dos biopolímeros ao reaproveitamentoPlásticos feitos a partir de plantas, bactérias, fungos e até mesmo com proteínas extraídas de lulas. A ciência do bioplástico é vasta e curiosa, mas ainda muito restrita ao ambiente dos laboratórios. Isso, agora, pode mudar. Em meio à proposta de que os fabricantes deem ênfase às soluções ainda na fase da concepção do produto, como quer a ONU, essas e outras alternativas ganham especial atenção – e fundos – para futuras resinas não mais dependentes de petróleo e gás. No Interior de São Paulo, mais precisamente em Ilha Solteira, pesquisadores do Departamento de Física e Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp) desenvolveram um bioplástico produzido a partir da gelatina incolor de tipo B, extraída do tutano de boi, argila e uma emulsão de pimenta-preta. O resultado foi uma embalagem comestível, mais resistente do que as similares e capaz de estender a vida útil do alimento por meio da adição de componentes antimicrobianos e antioxidantes. Ainda MarginalMesmo existindo há mais de dez anos, inclusive por meio de pesquisas de grandes setores industriais, os bioplásticos ainda são “marginais” diante do que se investe no polímero tradicional. Inger Andersen, diretora-executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), acredita não só no apoio a novas tecnologias como também a projetos de educação e reaproveitamento. No Quênia, onde aconteceu a 5ª Conferência de Meio Ambiente da ONU, a engenheira Nzambi Matee criou há cinco anos uma dessas propostas. Hoje, ela produz, diariamente, 1.500 tijolos com plástico reciclado. Mas isso não foi fácil. Partindo do zeroSem apoio, foram meses de testes até que Matee, hoje com 30 anos, obtivesse sucesso. Seus tijolos são duas vezes mais resistentes do que os similares, feitos de concreto. A ideia surgiu de uma constatação presente em praticamente todas as cidades do mundo: há muito mais resíduo do que a capacidade de reciclá-los. A empreendedora queniana partiu do zero e desenvolveu máquinas e métodos que permitiram a transformação da resina em blocos, empregando quase 200 pessoas.