[[legacy_image_301081]] A jovem aluna entra esbaforida na sala, suando, tremendo e com os olhos marejados. Nervosa, derruba a mochila, arrasta a carteira, tentando recompor-se. O professor para a aula. – Você está bem? Quer uma água? – Não, professor, tudo bem, tudo bem. O senhor vai me dar falta? A aula já estava no meio e ela já vinha acumulando faltas. – O senhor vai me dar falta? – insistiu. – Não, não vou. – Então, posso ir embora? Não haviam passado cinco minutos desde que entrou. – Você não quer que algum colega a acompanhe? Conversar um pouco, acalmar? Respondeu que não e foi embora. Sentindo-se impotente, o professor não sabia se continuava. Saía de casa pensando que estava ajudando a transformar a vida de muita gente, mas, naqueles poucos minutos, concluiu que, no fundo, tinha falhado. Olhou para todos aqueles rostos e percebeu que não os conhecia. Eram nomes em uma lista de chamada e números em estatísticas. Quantas vezes conversaram sobre amores e afetos, sobre os prazeres da vida? Refletiu que o modelo educacional entope esses estudantes com ferramentas para que se tornem profissionais eficientes, bem-sucedidos, máquinas a serviço da produtividade. Mas o que fazer quando as máquinas falham? Estudo da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) aponta que, em 2020, com a pandemia de covid-19, os transtornos depressivos maiores aumentaram em 35% e os transtornos de ansiedade, em 32%, nas Américas. Isso levou o diretor da organização, Jarbas Barbosa, a afirmar recentemente que a saúde mental deve ser colocada no topo das agendas de políticas públicas. Tratando-se de Brasil, oito a cada dez pessoas de 15 a 29 anos apresentaram algum problema de saúde mental, de acordo com pesquisa Datafolha divulgada no final de 2022. A maioria desses jovens sofreu com pensamentos negativos (66%), dificuldade de concentração (58%) e crise de ansiedade (53%). Não há respostas simples para perguntas difíceis. A fuga da aluna da sala de aula pode ser resultado de vários fatores, mas a forma como o sistema educacional e o discurso social tratam situações assim é bem direta e cruel: são máquinas que falham. Um ideal de busca pela perfeição, envernizada de modo competente pela cultura corporativa e que acaba influenciando o ambiente educacional, torna pessoas com esta aluna um estorvo. No mundo da hiperconectividade narcisista, é proibido ser imperfeito. Neste momento, é bom recorrer à filosofia japonesa do wabi-sabi. Mesmo que seja um ideal de definição complexa (em uma delas, wabi significa simplicidade tranquila e sabi, pátina dos anos), é possível extrair alguns princípios básicos: ver a beleza na imperfeição e na incompletude da vida. Em seu artigo “A estética wabi-sabi: complexidade e ambiguidade”, a doutora em Comunicação e Semiótica e professora Michiko Okano ilustra os ideais de imperfeição citando o escritor e monge budista japonês Yoshida Kenko. Para ele, a Lua Minguante na chuva ou velada pela nuvem ou por galhos prestes a florescer é mais digna de admiração do que a Lua Cheia no céu limpo ou a cerejeira em sua plena florescência. Mudar o olhar. Conviver com as diferenças, o inexorável da vida e da matéria, entender que não somos máquinas, isso talvez ajude pessoas como essa jovem. É necessário saudar a imperfeição, trocando uma aula chata por uma xícara de chá (ou pelo nosso tradicional café), em um belo jardim, como ensina o wabi-sabi.