[[legacy_image_232533]] O lutador Charles Oliveira, o Charles do Bronxs, tem uma história (e tanto) de superação. Natural de Vicente de Carvalho, em Guarujá, recebeu ainda criança o diagnóstico de que não teria condições de praticar esportes, mas conseguiu reverter o quadro e se tornou um dos principais nomes do Brasil no MMA. Basta ver que é o maior finalizador da história do UFC. Além disso, procura ajudar a comunidade onde cresceu com o Instituto Charles do Bronxs. “Já tenho esse projeto social há uns dez anos. Agora, em 2022, que virou instituto. Quero continuar formando lutadores e, acima de tudo, homens e mulheres de bem”. O atleta de 33 anos acrescenta: “Em 2023, desejo reconquistar o cinturão (dos pesos-leves)”. O que sente quando olha para trás e vê tudo que conquistou? A palavra-chave, de coração, é gratidão. Por tudo que Deus me dá e que tenho hoje, por todas as pessoas que trabalham comigo ou que acreditam em mim, por meus pais terem me impulsionado lá atrás, quando ninguém apostava em mim. Com 10 anos, recebi dos médicos o diagnóstico de reumatismo nos ossos e sopro no coração. Disseram que eu não ia conseguir nem jogar futebol. O esporte entrou na sua vida para complementar o tratamento?Eu já tinha o hábito de praticar esportes antes disso, por estímulo dos meus pais: judô, caratê, natação, capoeira, futebol... Fiz várias modalidades, mas me encontrei para valer no jiu-jítsu. Após sair do hospital, comecei a me dedicar a esse tipo de luta e fui superando as minhas limitações físicas. Com 12 anos, me tornei campeão paulista. E não demorou para não ter mais nada, ficar bem de saúde. Em primeiro lugar, atribuo minha cura à fé em Deus e, depois, ao esporte. Os meus pais me ensinaram a ser bastante sonhador. Coloquei para mim que um dia ia ser reconhecido, que quebraria recordes, que faria palestras sobre a minha história, que chegaria a um lugar e o faria parar. Deus vem proporcionando tudo isso para mim. Além de sonhador, você também é de planejar como viabilizar as suas metas? Sim. Sendo bem sincero: em tudo que faço sempre penso muito não só em mim, mas em ajudar também a minha família e as pessoas ao meu redor. Batalhei, por exemplo, para ter como dar uma boneca para a minha filha (Tayla, 5 anos) sem me preocupar com o dinheiro, pois minha mãe nunca teve uma boneca na vida. Ela carregava lata na cabeça. Venho me dedicando imensamente para as coisas acontecerem também para a minha família. A gente morava nos fundos da casa da minha avó em Vicente de Carvalho. Hoje, vivo perto da praia e tenho um carro legal. Meu irmão possui a casa dele. Meus pais moram em um sítio. Pelo jeito, é bem religioso.Eu não sou aquele cara que vive dentro da igreja, mas possuo um vínculo gigante com Deus. Não falo das minhas conquistas para me exibir. O que quero, na realidade, é mostrar para as pessoas que, quando você acredita verdadeiramente em Deus e se empenha, as coisas acontecem. E mesmo com o reconhecimento, continua fiel às suas origens.Exatamente. Montei a minha academia e o meu instituto em Vicente de Carvalho e ainda moro em Guarujá. O que mudou é que levo uma vida bem melhor do que antigamente. Só que não larguei as minhas origens. Continuo frequentando a comunidade onde cresci, a favela, porque quero que as pessoas de lá vejam que alguém que veio de baixo pode crescer na vida, subindo um degrau de cada vez, sem pisar em ninguém. Eu nunca precisei fazer nada de errado. Hoje, muitas crianças da comunidade que, antes queriam ser traficantes, me têm como uma referência. Vi com meus olhos tudo de errado, mas deixo claro para as pessoas que elas podem errar, o que não dá é insistir naquilo. O melhor é acreditar em um sonho e arrumar um trabalho. E não precisa ser lutador como eu para se dar bem. Tem é que batalhar, se dedicar ao que faz.