[[legacy_image_225162]] São 11 horas de sexta-feira. Aguardo na fila do caixa da farmácia. Antes de mim, uma mãe com sua filha passava as compras. A mãe pediu para passar primeiro o pacote de absorvente e ordenou à menina, de uns 14 anos, com um “guarda na mochila”. A garota ensaiou um “mas”, que acabou rapidinho com o olhar materno “faz o que estou mandando”. Todo o restante da compra foi na sacola de plástico. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Essa mãe queria “preservar” a filha. Imaginava resguardar a intimidade da jovem, assim como fizeram com ela. Se você é mulher e está lendo esse texto, já entregou um absorvente escondido a outra mulher. Sempre existiu tal constrangimento. Mas continuar existindo é um alerta. O reforçado naquele momento entre mãe e filha foi um entre tantos tabus relacionados à menstruação. E que seguem, assustadoramente, sendo repassados de geração para geração. Em 2021, apresentei em um congresso de Ciências Sociais um estudo comparado entre mulheres na faixa dos 40 anos e jovens entre 16 e 18 anos, com foco nos tabus da menstruação. Apesar de atualmente as meninas terem mais acesso à informação, em especial quando chegam à menarca (primeira menstruação), questões como vergonha, aumento de responsabilidades e receio de proximidade com meninos e homens ainda estão presentes. Não incomum, esses estigmas impactam a sexualidade das mulheres e seus relacionamentos íntimos. Aqui, um dos depoimentos da pesquisa que realizei, de uma professora, na época com 49 anos: “O fato de ‘ser mulher’ me fez muito mal. Essa situação veio seguida de muitas restrições. (...) Não me senti mulher. Me sentia estranha e me afastava das pessoas. (...) Não tinha a menor ideia do por que menstruar. Só sabia que a partir daquele momento poderia engravidar e isso me apavorava. (...) Acredito que, se tivesse sido orientada da forma correta, minha relação com a menstruação, minha vida sexual teria menos medos e constrangimentos”. Já uma jovem de 17 anos disse sobre a menarca: “Minhas primas me olharam como se eu fosse um ET e a minha mãe agiu como se uma coisa horrível tivesse acontecido comigo. Me senti estranha, não entendi direito o que estava acontecendo e fiquei assustada”. As orientações são, essencialmente, sobre como usar o absorvente e cuidar da higiene. Poucas jovens recebem explicações sobre as funções biológicas do menstruar e se sentem julgadas quando enfrentam mal-estar, cólicas e não dão conta de tarefas escolares ou profissionais. A relação com a menstruação continua ruim, remetendo a empecilhos, ao desagradável, como um castigo pelo feminino. Não precisa (e não pode) ser assim. Só comecei a ter uma relação positiva com a minha menstruação depois dos 40 anos. Lamento por isso. Hoje, enxergo como uma fase do mês em que desacelero, deixo meu corpo fazer as limpezas necessárias (físicas e emocionais), me cuido com carinho. Descanso mais, durmo mais. Inclusive porque o pós-menstruar traz potência e uma disposição infinita para dar conta do que precisa. A menstruação nos ensina a “morrer” e “renascer” todos os meses. Nos mostra que os ciclos são parte da vida e é preciso respeitá-los, para tirar o melhor de cada fase – seja do nosso mês, seja da nossa história. A menstruação é tema emergente de investigação em diferentes países, com análises sobre suas implicações para meninas, mulheres e pessoas que menstruam. Os impactos variam de riscos físicos, como infecções por falta de condições de higiene, impossibilidade de troca de absorventes, de acesso a produtos absorventes, ou mesmo a consideração de que é item supérfluo no orçamento; até riscos emocionais, reforçando medos, ansiedade, estresse e ideias de limitação de lugares para a mulher; se desdobrando em danos educacionais, profissionais e financeiros. Especialistas indicam que, ao lado dos estudos sobre gênero e raça, a menstruação explica como sistemas de pobreza e de conhecimento são construídos. E quem se beneficia de tais construções sociais, enquanto mulheres sofrem por uma condição natural e especial do organismo, como mais uma culpa a carregar?