[[legacy_image_249749]] Tenho sonhos premonitórios. Inúmeras vezes ao longo da vida tive a confirmação de que eu vejo as cenas que acontecerão no futuro por meio dos sonhos. A questão é que a “revelação” pode acontecer rápido ou demorar anos para sair do universo de Morfeu e transitar para a realidade. Nada faz muito sentido inicialmente e, então, eu me recusei, por muito tempo, a confiar naquelas cenas oníricas. Mas, com o passar dos anos, ficou impossível ignorar. Talvez porque o tempo faz com que nós deixemos de acreditar em muitas coisas e, paradoxalmente, nos leva a nos apegarmos aos vestígios de todos os sentidos que a vida apresenta. No mundo real ou fora dele. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Há cerca de dez anos, sonhei que estava num ambiente que tinha uma das paredes de vidro. Ao me aproximar dessa parede-janela, percebi que estava no segundo andar de uma construção predominantemente branca. Eu estava à espera de uns amigos e sentia uma alegria imensa, mas ela não era plena. Era uma espécie de alívio. Sabia que estava longe de casa, longe do Brasil, longe da família e dos meus amigos de sempre. Havia muito verde lá fora e eu estava vestida em roupas de inverno. Esse sonho foi muito marcante, porque esses sentimentos, os sentimentos de um imigrante, não são algo que possa ser facilmente associado a outras situações. Só um imigrante sabe o que acontece dentro dele: as saudades, o misto de sentimentos, a vontade de vida que precisa ser renovada apesar das negativas das circunstâncias. Bem, em 2020, numa tarde de outono, uma amiga me liga: — Beth, tô passando aí com mais umas amigas para irmos às salinas assistir ao pôr do sol. Vamos? Eu, cansada de estar há tempos sozinha e isolada, por conta da pandemia, aceitei na hora. Corri para me aprontar e, em seguida, fui preparar um sanduíche. Enquanto o comia, aguardando a chegada da minha amiga, aproximei-me da imensa janela de vidro que toma toda a parede da cozinha do bloco A do alojamento estudantil da Universidade de Aveiro, também conhecido como “o prédio branco”. Duas árvores frondosas, a menos de cinco metros da entrada do prédio, faziam as vezes de cortina verde. E lá estava a cena, acompanhada daquele sentimento complexo do sonho. Não era um simples déjà-vu. Eu sabia exatamente que aquele momento já havia sido vivido em sonho. Aquela sensação, aquele rebuliço de emoções, aquela ânsia contida na dúvida de ir ou ficar, sempre acompanhada pela alegria de realizar sonhos, estavam ali, sendo experienciados na realidade. Cerca de dois anos antes de vir para Portugal, sonhei que morava num lugar lindo. A casa, que parecia ficar no piso superior de uma sobreposta, estava meio vazia, apenas com alguns utensílios de cozinha. Eu sabia que estava em Portugal, porque via um azulejo português numa das paredes. Ao abrir a porta, vi um espetáculo da natureza: o sol se pondo atrás de um campo imenso. O ar puro e a liberdade me enchiam os pulmões. Acordei com a sensação de que não havia vazios suficientes que não pudessem ser preenchidos por aquele sopro de alegria genuína. Ontem, fui conhecer uma casa. Ao subir o lance de escadas que me levariam ao seu interior, quase perdi o fôlego. Do alto, pouco antes de entrar pela porta recém-aberta pelo senhorio, virei-me para trás para olhar a paisagem e lá estava a cena. Lá estavam os mil e um sentidos. Emocionei-me. — É esta — disse ao Miguel. Nem precisaria entrar, mas, quando o fiz, o vazio do seu interior e os poucos utensílios da cozinha só me confirmaram o que eu já sabia. Um novo sopro de esperança, de uma vida preenchida de começos infinitos, entrou por meus pulmões. A vida real é insuperável.