"Possuo relação íntima com a colônia de pescadores da Praia do Perequê, onde eu nasci, e atualmente estou iniciando uma pesquisa para um filme documentário chamado Maré Mansa", diz Kuanza (Divulgação) Contrariando estatísticas, Sidney Santiago Kuanza conseguiu romper as barreiras da periferia e do preconceito, tendo reconhecido seu talento e dando vida e voz a personagens negros emblemáticos. Nascido e criado no Perequê, em Guarujá, o multiartista está em uma fase de muito trabalho e reconhecimento na carreira. De volta à nova temporada do seriado Rensga Hits!, do Globoplay, como Théo, ele também acaba de estrear no Teatro B32, em São Paulo, no espetáculo Ray – Você Não Me Conhece, em que interpreta o icônico Ray Charles, sob direção de Rodrigo Portela. Seus novos projetos incluem ainda uma turnê com o seu solo A Solidão do Feio, peça pela qual foi indicado ao Prêmio Shell de Teatro. “Foi uma surpresa, pois é um projeto autoral que levei seis anos para realizar, entre pesquisa, produção, ensaios e temporada. Ele sofreu muita recusa por parte de editais públicos e também de algumas instituições privadas. Cheguei a desistir e fui reencorajado pela minha equipe. Sou um ator do movimento de teatro negro brasileiro, então geralmente estou em cartaz nas periferias dos grandes centros, em pequenos teatros, espaços alternativos e apostando na rua como uma localidade dos encontros cênicos”. Como tem sido participar de uma produção onde você atua e também canta? Como foi a preparação? Estamos há dois meses realizando um trabalho extremamente intenso. São 12 horas por dia. Esse projeto, em especial, exige uma preparação corporal bem profunda para conseguir dar conta desse tipo de montagem. São 2h30 de espetáculo, sendo alguns dias com sessões duplas. A recepção do público tem sido muito bacana com a série Rensga Hits desde a primeira temporada. Nesta fase, novos assuntos, como preconceito de gênero e paternidade, também são explorados. Você acha que isso também faz o sucesso da produção? Acho que sim, existe uma conexão muito interessante em temas que são urgentes e como a equipe de roteiro trabalho isso. Eles conseguem fazer e discutir temas espinhosos com humor e de forma progressista. No teatro, você foi indicado ao Prêmio Shell. Conte um pouco da peça para gente e fale também da sua relação e com o palco. Este projeto, que me rendeu uma indicação a este que é o nosso maior prêmio de teatro no Brasil, se deu através de uma pesquisa autoral na qual há seis anos eu pesquiso as masculinidades negras e como elas trouxeram grandes contribuições ao campo das artes, da literatura, das ciências, da política. Com este projeto, o nosso intuito foi trazer à tona a contribuição de homens negros que foram ou ainda, em certa medida, são silenciados pela sociedade brasileira. Lima Barreto é o personagem tema da peça A Solidão do Feio. Na montagem, contamos a trajetória do herói afrobrasileiro que foi genial para a nossa literatura. Então, tem um gosto especial, pois além de um projeto estético, ela é uma criação política que dialoga com a necessidade de repensar homens negros na sociedade brasileira. Demorou dois anos para acontecer. Pretende trazer a peça para Baixada Santista, para sua casa? Sim, pretendo o quanto antes excursionar com A Solidão do Feio e com Ray - Você Não Me Conhece. Sempre é importante passar pelo Litoral, pois é uma forma de eu me reconectar com minha essência e compreender os processos das cenas na Baixada Santista, sempre um intercâmbio. Você continua morando no Guarujá ou está em São Paulo? Moro em São Paulo desde o fim da adolescência. Eu me mudei para a Capital para estudar artes cênicas e trabalhar. Mas possuo relação íntima com a colônia de pescadores da Praia do Perequê, onde eu nasci, e atualmente estou iniciando uma pesquisa para um filme documentário chamado Maré Mansa que conta a história de uma tia e sua relação com a Favela da Maré Mansa no Guarujá. Como foi que você começou sua relação com a arte de atuar e qual conselho dá para quem quer iniciar na carreira? Meu processo iniciou assistindo a espetáculos de circo e vendo filmes. O caminho sempre é o estudo. Procurar na sua região um grupo de teatro, escola de artes, dança e ir acompanhar os processos. Os grupos e as oficinas culturais sempre são os melhores lugares e acessíveis para iniciar e possibilitar vivências artísticas. Infelizmente, o Litoral possui uma escassez de recursos para investimento em cultura. Isso é um problema gravíssimo. O artista negro está tendo mais oportunidades em novelas, filmes, teatro ou a desigualdade de oportunidades, assim como acontece em outras esferas da sociedade, segue grande também na carreira artística? A adoção de políticas de ações afirmativas na sociedade brasileira, no campo da educação, trouxe muitos frutos no campo das artes. Por exemplo, em 2015, o Instituto Gema fez uma pesquisa sobre a autoria de mulheres no cinema. Naquela altura, em 2015, 0,03% de todos os filmes brasileiros tinham sido feitos por mulheres negras. Dez anos depois, isso mudou muito e pela adoção de políticas afirmativas. Tudo para dizer que acredito que hoje estamos vendo outras paisagens, e aí paisagens é uma metáfora para falar sobre a ascensão de artistas negros no nosso cenário, no teatro, no cinema, na televisão, mas ainda é uma ascensão muito tímida. Se pensarmos que temos no mínimo 70 anos de indústria e essa transformação tem acontecido nos últimos quatro anos, nós temos um longo caminho para ter um audiovisual e um cenário das artes diversos no País. Você é uma voz preta que sempre coloca este tema em seus trabalhos, inclusive na revista Legítima Defesa, a única publicação negra brasileira. Na última semana, o assunto racismo voltou à pauta com o jogador de futebol Vini Jr e polêmica Bola de Ouro. Qual a importância dele e de todas as vozes influentes que se levantam contra o racismo? Acho que a voz dele faz diferença não só no Brasil, mas no mundo, porque nesse momento o Brasil, com todos os retrocessos, ocupa um lugar muito significativo no debate da luta antirracista. Colocar-se faz do Vini Jr. um farol para países africanos, para países latino-americanos, caribenhos e europeus na necessidade de discutir o racismo como uma chaga social que está presente em todas as esferas da experiência humana. Por isso, eu o vejo como um grande influente dos nossos tempos e um cara que tem cada vez mais tentado se informar e fazer desse seu lugar de visibilidade no mundo um campo de debate.