Com episódios curtinhos, de meia hora, German Genius é puro sarcasmo e cinismo (Divulgação/Max) O streaming nos proporciona momentos divertidos, mesmo quando não é esta a intenção. Zapeando o Max na última semana, descobri uma série cômica alemã sobre a qual nunca tinha ouvido falar em lugar algum, com um tipo de humor muito, muito particular: German Genius. Não me lembro de ter visto comédias alemãs antes e se esta for servir de referência, o talento para fazer rir é surpreendente, com um tom meio britânico, autoirônico e caótico. A série propõe um exercício de metalinguagem, com os todos os atores vivendo eles mesmos na tela. Tudo gira em torno de um ator de sucesso na tevê local, Kida Ramadan, obviamente de origem árabe, que fez sucesso em um seriado policial recém-cancelado, não está satisfeito com a própria carreira e tem sonhos ambiciosos de emplacar um campeão mundial de audiência, sem muito sucesso. Ele permanece desempregado, apesar das ofertas de trabalho que chegam, porque não quer entrar em nenhum projeto que não esteja ao seu nível, segundo sua própria opinião, recusando assim, inclusive, o papel principal na adaptação de um best seller. Passa seus dias em casa atrapalhando o estudo dos filhos, que aliás acham que ser ator não é uma profissão e que ele deveria ser contador, aí sim uma ocupação nobre, e o trabalho da esposa. Tudo o que ele e seus colegas tentam fazer dá errado e o ar de superioridade que eles todos tentam manter é nada além de patético. Até que um fato inesperado muda tudo: um ator famoso, Ricky Gervais (de The Office, versão britânica) escreve um tweet elogiando Kida na série 4 Blocks, uma produção policial superviolenta, na qual ele faz o chefe de uma gangue e que é seu trabalho mais conhecido. Envaidecido, Kida viaja, então, até a Inglaterra para tentar convencer Gervais a lhe autorizar a produzir e estrelar uma versão alemã de Extras, um de seus sucessos. Por alguma falha do destino, consegue convencer o colega e volta para a Alemanha com um plano claro: recrutar os maiores astros das artes alemãs contemporâneas para seu novo show. O problema 1: Christoph Waltz está em Hollywood, Diane Kruger é arrogante e Arnold Schwarzenegger é austríaco. Problema 2: Beethoven, Einstein, Goethe e Marlene Dietricht estão mortos há muito tempo. Kida, então, tem a ideia de recrutar atores desconhecidos para viver, na série, estes astros (parece complicado, mas assistindo fica fácil de acompanhar). A situação, que até começa promissora, segue uma escalada de problemas que piora a níveis inimagináveis e que, por isso mesmo, é engraçadíssima. Ao longo dos oito episódios dessa primeira temporada (lançada em 2023), vemos rostos conhecidos, como o do próprio Ricky Gervais e do excepcional diretor Win Wenders, em uma rara aparição como ele mesmo. A série tem momentos sensacionais, como a conversa com Win Wenders ou o momento em que seu filho é forçado a fazer, em público e no meio de uma festa promovida por mafiosos, uma circuncisão. Sem contar com o próprio processo de produção do show dentro do show, em que os personagens mais nonsense vão pipocando. As coisas pioram e saem do controle de Kida até um desfecho que eu já suspeitava, mas que me divertiu muito. Com episódios curtinhos, de meia hora, German Genius é puro sarcasmo e cinismo.