[[legacy_image_213439]] Numa era onde todo ato, para ser validado, precisa ser filmado e publicado nas redes sociais, ser testemunha da generosidade silenciosa é sempre comovente. Embora, geralmente, quem é responsável por esse tipo de prática tenha o desejo genuíno de ser discreto, a maturidade pode aprimorar os nossos olhos de tal forma que podemos nunca deixar de notá-la. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Muito se fala da generosidade do povo brasileiro e, claro, quando se é imigrante, nos irmanamos pela identificação das situações e tendemos a nos acolher mutuamente. Sou muito grata aos amigos brasileiros que fiz em Portugal, por todo amor que cultivamos — e espero cultivar eternamente. Mas, com o tempo, pude comprovar que esse tipo de qualidade tem muito mais a ver com caráter e traço de personalidade do que com a geografia. Ao longo dos últimos dois anos, tive o privilégio de conhecer a generosidade silenciosa dos portugueses em diversos momentos. Uma das primeiras pessoas a demonstrá-la, com sua sensibilidade e empatia imensas, foi a professora Cristina Carrington. Um tipo de generosidade tão profunda que chega a ser poética. Também foi assim com o Miguel, quando nos conhecemos. Ele me salvou de mim. Com ele, tenho aprendido sobre ser generosa comigo mesma. Parece fácil, mas nem sempre é. A objetividade do Miguel, que me espantou num primeiro momento pela naturalidade, agora me serve de exemplo de conduta. Hoje, percebo que se esforçar para agradar os outros a qualquer preço ou ficar constantemente preocupado em evitar melindrá-los, invariavelmente, faz com que você se entregue mais do que é útil para todos os envolvidos — e isso não é saudável. Acaba sendo justamente o oposto da generosidade consigo mesmo, por razões óbvias, mas também com o outro, que não pôde sequer contar com a sua autenticidade. A generosidade assertiva do Miguel fala sempre e me encanta ouvi-la. Mas foi a silenciosa que se estendeu para minha família. Em tom audível só ao meu coração, ele ofereceu a terra, a casa, para que outra semente, da mesma árvore que vim, se aconchegasse nela. As intempéries do mundo, contudo, não permitem que as sementes germinem sem dor. E quando a esperança estava quase seca, a Carla cruzou o caminho. Ofereceu água, nutrição e afeto, e a semente recém-chegada, já cansada de tentar brotar e ser tolhida, voltou a acreditar que poderia renascer. Mas assistir ao sobreviver, para os generosos, é muito pouco. Carla, agora ao lado do marido, também Miguel, foi em busca de um vaso maior, para que pudesse haver um florescer mais livre para a nova vida iniciada na terra que compartilha. Só os genuinamente dedicados veem na semente a árvore frondosa que está ali escondida. Serei eternamente grata à Carla e à sua família por cuidarem da Flor de Setembro. Assim como vocês, eu também tenho a certeza de que ela possui talento para ser árvore. É primavera apenas no Hemisfério Sul. Mas algumas pessoas, onde quer que estejam, espalham vida pelo mundo, mesmo que a estação não seja propícia.