[[legacy_image_146643]] Afonso Poyart sempre quis trabalhar com cinema. Tanto é que, aos 15 anos, já contava as suas histórias em vídeos que produzia com os amigos. Aos 18, teve a oportunidade de fazer o comercial de uma feira que ia acontecer em Santos, o que abriu portas para montar a própria produtora e atuar, a princípio, no mercado publicitário. Como o diretor santista de 43 anos diz, tudo isso permitiu que acumulasse conhecimento suficiente para se aventurar no cinema. Resultado: após lançar Dois Coelhos, o seu primeiro longa, foi chamado para dirigir Anthony Hopkins e Colin Farrell em Presságios de um Crime. Na sequência, lançou o filme Mais Forte que o Mundo – A História de José Aldo (cuja minissérie derivada foi indicada ao Emmy) e dirigiu as duas temporadas do seriado Ilha de Ferro, do Globoplay. Agora, prepara seu mais novo longa, Biônicos, uma produção original da Netflix. “Santos me inspirou muito. Ainda quero rodar um filme todinho na Cidade”, afirma Afonso no bate-papo com o domingo +. Confira a entrevista. O seu próximo filme será uma produção original da Netflix?Sim. Ele se chama Biônicos. No momento, estou na fase de pré-produção. Vamos rodar entre maio e junho em São Paulo e no Rio de Janeiro, para lançar em 2023. Trata-se de uma ficção científica, inspirada no curta que fiz recentemente, o Protesys, com o Cauã Reymond. É uma distopia que fala sobre próteses biônicas. Na história, atletas passam a usá-las para melhorar sua performance e isso cria uma disrupção no mundo dos esportes, de modo que grandes nomes que não aderem à modalidade “biônica” perdem espaço. É uma proposta interessante, ainda mais que o Brasil não tem tradição na ficção científica.Quero criar filme com DNA brasileiro, fazer quase um sci-fi tropical. Depois de trabalhar nos Estados Unidos, dirigindo Presságios de um Crime, procuro pensar no cinema de uma forma global. Hoje, com plataformas como a Netflix, não dá mais para ser diferente disso. Qual foi a maior lição que teve ao trabalhar em Hollywood?Saí do meu primeiro filme, Dois Coelhos (2012), que fiz com amigos de modo muito caseiro, em um sistema quase de cooperativa, e pouco tempo depois, no meu segundo longa, o Presságios de um Crime (2015), me vi no mercado americano, dirigindo duas estrelas (Anthony Hopkins e Colin Farrell). Foi um choque. Eu não estava preparado para essa transição tão rápida. Tive de me adaptar, pois era um cara mais acostumado a fazer publicidades. Aprendi demais. Levo esse conhecimento para todos os meus projetos. Tentou fazer mais trabalhos nos EUA? Eu tinha ofertas para dirigir outros filmes lá, mas, como entre o Dois Coelhos e o Presságios de um Crime eu captei dinheiro para rodar Mais Forte que o Mundo – A História de José Aldo, voltei para o Brasil para tocar o projeto. Na sequência, fui chamado para fazer a série Ilha de Ferro, do Globoplay. Como foram duas temporadas, fiquei dois anos na Globo. Desde então, estou focado no Biônicos. Como o mercado audiovisual nacional tem se comportado com a chegada de diversos streamings ao País? Antes dessas plataformas, você fazia filmes e séries com dinheiro proveniente de incentivos fiscais. Só que o Governo Bolsonaro deu uma estancada nisso. Os profissionais da área ficaram anos sem conseguir financiar seus projetos. A Netflix, a Amazon, o Globoplay e os outros streamings têm ajudado a suprir essa falta de recursos. Até porque costumam contar com dinheiro próprio e orçamentos grandes. Também estão trazendo a cultura de desenvolver um trabalho com olhar mais cuidadoso desde o início. No caso do Biônicos, foram quase dois anos apenas de desenvolvimento do roteiro. Fora do País, o tempo de maturação de um projeto costuma ser maior. Os streamings vão forçar o mercado nacional a melhorar cada vez mais, pois o nível de exigência é bem alto. As plataformas procuram produzir em praticamente todos os grandes mercados em que estão presentes, para manter seus catálogos sempre com novidades, já que a pandemia aumentou bastante o número de horas consumidas (pelos usuários). O Brasil não pode perder essa oportunidade. E como o pessoal lá fora enxerga o nosso audiovisual? Ele é bem visto nos EUA. Quando fui para lá, as pessoas conheciam o nosso cinema contemporâneo, principalmente por causa de Cidade de Deus e Tropa de Elite. Mas nós ainda não encontramos nosso espaço em termos globais. Uma das coisas que mais ouvi nos EUA é que, por mais que eles queiram rodar filmes aqui, tudo é burocrático. O que despertou o interesse no cinema?Sempre quis produzir filmes. Por gostar de informática, fiz um curso de computação gráfica e abri uma escola, com investimento do meu pai. Aí, aos 18 anos, tive a chance de fazer o comercial de uma feira da Cidade, com computação gráfica, que me trouxe vários convites para trabalhos na publicidade. Acabei abrindo uma produtora e não parei mais. Só que demorei para fazer o meu primeiro curta (o que aconteceu em 2005). A publicidade, portanto, foi a maneira que encontrei para começar a criar produtos audiovisuais.