[[legacy_image_201409]] A paixão pelos computadores, que surgiu ainda na infância, com as aulas de Informática, inspirou a santista Marina Queiroz, de 35 anos. Foi o que a fez ter interesse pelo mundo tecnológico, escolher isso para sua carreira e embarcar em um desafio em um novo país para atuar como gerente de contas e programas de distribuição de uma grande empresa de tecnologia para as Américas.Os 15 anos de trajetória da santista viraram capítulo do livro TI de Salto, que compartilha histórias reais de mulheres nessa área. Uma mulher lésbica caiçara na tecnologia é o nome do capítulo. As páginas, além de mostrar o caminho para o sucesso na profissão, transportam o leitor para a Marina fora do trabalho: a menina criada pela mãe e a avó e que nunca conheceu o pai. A jovem nascida e criada em Santos, que precisava pegar ônibus fretado todos os dias para fazer estágio em São Paulo. A mulher lésbica que luta pela causa LGBTQIA+, inclusive e principalmente dentro das grandes empresas. “Em nenhum momento consegui separar pessoal e profissional porque sou transparente e preciso de pessoas ao redor para compartilhar. Minha melhor amiga, por exemplo, trabalhava comigo na primeira empresa de tecnologia. Minhas vidas profissional e pessoal sempre foram próximas”. Nos Estados UnidosAtualmente à frente de um setor na empresa considerada referência global de tecnologia, Marina mora em Oregon, nos Estados Unidos, há cinco anos. No entanto, sempre que está no Brasil, visita Santos, onde sua família vive. A região também é onde a gerente começou na tecnologia. Junto ao Ensino Médio, fez o curso técnico de Informática integrada no Centro Federal de Educação Tecnológica de São Paulo (antigo Cefet, hoje Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia São Paulo, em Cubatão). “Lembro que na escola, quando tive contato com computador, fiquei maravilhada. Havia aulas opcionais de Informática em um período diferente e fui a primeira a querer participar”, diz Marina. Ela tinha 7 anos. Após o curso técnico, ela iniciou Processamento de Dados na Faculdade de Tecnologia (Fatec) de Santos. Ao mesmo tempo, cursava Hotelaria em outra universidade. Neste período, teve dúvidas sobre o caminho a seguir e, ao conseguir um estágio no Santos Futebol Clube por meio do curso de Hotelaria, trancou a Fatec. “Trabalhei seis meses, mas vi que não era o que eu queria. Destranquei a Fatec e tive que trancar, desta vez, a Hotelaria”. Ao participar de uma dinâmica para a entrevista do estágio em uma empresa de São Paulo, Marina chegou a duvidar de si mesma. “Quando vi de onde os outros candidatos vinham, pensei que tinha ido a passeio”. Porém, contrariando as expectativas, foi contratada e, em seguida, efetivada. Neste período, subia e descia todos os dias, já que morava em Santos e trabalhava na Capital. Presença das minoriasA partir daí, a carreira deslanchou. Encontrou percalços, mas os superou. Ela relembra que a presença de homens foi e continua sendo maioria na área de tecnologia, mas acredita que o cenário pode mudar.“Ainda se vê mais homens do que mulheres, mas em determinadas áreas ganhamos mais espaço por nossas qualidades, como atenção aos detalhes, cuidado com o cliente e foco”. Marina conta que, onde trabalha, há um grupo de apoio aos funcionários voltado às minorias, como latinos, mulheres e a comunidade LGBTQIA+. “Eu sempre foquei muito mais em apoiar e fazer voluntariado voltado para o LGBTQIA+ porque conheço pessoas que até hoje não falam abertamente sobre serem gays e lésbicas”. LivroMarina explica que foi convidada para participar do livro TI de Salto no fim de 2020. “Nunca imaginei ter um espaço para poder contar minha trajetória. Foi um grande prazer e felicidade poder registrar minha jornada, começando em Santos e estudando na faculdade local até a entrada em uma multinacional de tecnologia”. Para eternizar sua história no livro, ela escrevia durante as noites. “Era o início da pandemia, não tinha vacina e a gente ficava parada dentro de casa. Tenho momentos de criatividade de noite e comecei a digitar os tópicos que separei para garantir que não esquecesse”, diz, explicando que contou com apoio da equipe responsável pela publicação em todos os momentos. Segundo a santista, o fato de ter atuado em grandes multinacionais, que um dia foram apenas sonho, pode ser inspiração para os mais jovens. “Quando a gente está lá no banco da faculdade, a gente sonha que adoraria trabalhar em uma empresa assim. Eu acho que as pessoas que estão começando a carreira devem acreditar e seguir o que têm vontade. Muitas vezes temos essa síndrome do impostor de achar que não vai dar certo”. Ela relembra o processo seletivo do primeiro estágio, em que pensou que era a candidata com menor potencial, mas foi a escolhida. “Eu não tinha a mesma bagagem que os outros candidatos, mas às vezes o que se precisa está no que a gente chama de soft skills (habilidades interpessoais). É a nossa criatividade, forma de se comunicar com as pessoas, isso é muito único. E eu acho que, em Santos, a gente tem essa facilidade de levar a vida de um jeito mais leve”. Porém, o apoio da família também é indispensável na escada do sucesso, pois a motivação é essencial na visão de Marina. “Fui muito incentivada pela minha mãe, que é a pessoa que me inspira. Ela sempre trabalhou e se esforçou para me dar as melhores condições, assim como para minha avó, que faleceu quando eu tinha 16 anos. Eu sempre a vi chegando tarde do trabalho e se esforçando. Para mim, hoje, aquilo é involuntariamente o que eu faço”.