(Alexsander Ferraz) A santista Luíza Fazio, de 30 anos, é uma das roteiristas da terceira temporada da série De Volta aos 15, protagonizada por Maisa e que tem no elenco ainda nomes como Larissa Manoela, Klara Castanho, João Guilherme, entre outros, exibida na Netflix. E o talento dessa caiçara já tem sido notado não é de hoje. Luíza figurou na lista Under 30, da Forbes Brasil, em 2022 pelo seu trabalho nos roteiros de séries como Sintonia e Cidade Invisível, além da participação na mais antiga residência literária do mundo, o International Writing Program, nos Estados Unidos. Nessa temporada da obra De Volta aos 15, Luíza também pôde desenvolver uma trama sáfica (de romance entre mulheres). “Sou lésbica e, por muito tempo, estivemos acostumadas a receber apenas migalhas nos filmes e séries quando o assunto era relações entre mulheres. Deixamos um pouco de lado aquela coisa de estar se descobrindo, de ter que contar para os pais... Quisemos explorar outras questões relativas ao romance”. Este ano, ela tem outro trabalho que será lançado na Disney +, protagonizado por Bruna Marquezine. Além disso, logo estreará como diretora de autoficção em um filme que gravará em Santos por meio da Lei Paulo Gustavo. Como foi que você entrou nesse universo dos roteiros? Fez teatro ou algum curso em Santos? A cena cultural em Santos é muito forte e sinto que temos muitas oportunidades para experimentar diferentes áreas culturais desde pequenos. A minha família possui uma veia artística que vem há gerações, então sempre escrevi desde nova, principalmente em fanfics na internet. No colégio onde estudei até o Ensino Fundamental, o Jean Piaget, teatro era matéria obrigatória e eu adorava escrever peças e até mesmo dirigi-las. Continuei meu gosto pelo teatro também no Ensino Médio, no colégio Universitas. Mas sinto que o que me impulsionou para o ofício da escrita realmente foi uma oficina realizada pela escritora Eliana Pace na Realejo Livros, que frequentei quando tinha entre 14 e 16 anos, de 2009 a 2010. Era a mais nova do grupo, formada por pessoas maiores de idade, mas sempre fui muito bem acolhida, especialmente pela minha mãe Valéria, que topou fazer a oficina comigo. O grupo se encontrava todo sábado à tarde para escrever contos e fazer exercícios literários. O projeto deu tão certo que, depois de dois anos de intensa produção, publicamos uma coletânea de contos financiada pelo Proac, chamada Laboratório do Escritor (2010, Editora Realejo). Como tem sido a experiência de escrever para streaming, que é um meio relativamente novo de entretenimento e que abriu muito espaço a todos da indústria do audiovisual? É revigorante ter outros espaços além da televisão para fazer filmes e séries a grandes audiências. A televisão aberta é um aspecto muito importante na cultura brasileira, mas temos poucos canais e um grupo seleto de profissionais que trabalham nessa área. O streaming possibilitou a formação de novas vozes do nosso audiovisual e a experimentar diferentes narrativas seriadas que sejam essencialmente brasileiras. Em De Volta aos 15, você roteirizou a trama sáfica entre Luiza e Bruna. Foi importante para você, como uma mulher lésbica, a série ter essa representatividade e esse lugar de fala? Além de importante, foi extremamente divertido! Ainda vemos poucos personagens LGBT nas telas, ainda mais um amor entre duas mulheres, então aproveitei a oportunidade. Pude fazer um mergulho interno e reviver todos os meus dramas amorosos da adolescência, paixões, decepções, triângulos amorosos e trazer para as personagens essa complexidade do que é ser uma jovem apaixonada. Às vezes, quando temos 18 anos, não sabemos como lidar nem com os nossos próprios sentimentos, quanto mais com os de outra pessoa. Então é normal haver desencontros e muito drama! Acho que representatividade é isso: ter espaço para mostrar conflitos cotidianos de personagens LGBT que também são universais. Ainda em De Volta aos 15, você está podendo dar vazão a uma paixão que é a ficção científica, já que o romance também fala de viagem no tempo. Pensa em fazer outros trabalhos nesse sentido e que tipo de ficção científica você gosta de ler e de assistir? Algo para indicar? Sempre que surgir a oportunidade de escrever ficção científica, estarei aceitando. (risos) Gosto muito quando o gênero de ficção científica se mistura a outros sem pudor. É o caso da série De Volta Aos 15, que se mistura com romance adolescente. Outra série que assisti muito enquanto trabalhava nela é a Iluminadas, da Apple TV, com o Wagner Moura e a Elizabeth Moss, que mistura viagem no tempo, serial killers e investigação policial. Também sou muito fã do k-drama Rei Eterno, disponível na Netflix, que mistura o conceito de multiverso e viagem entre diferentes dimensões com um romance épico e também uma trama policial. Adoro uma mistureba, mas confesso que nem sempre elas dão certo. Tem que pesquisar, escrever e reescrever muito para não fugir do tom e tudo fazer sentido harmoniosamente. Como é sua vida em Santos? Passei muitos anos morando em São Paulo durante a faculdade e meu início profissional, mas, na pandemia, o ofício de roteirista se tornou uma profissão que é possível realizar remotamente. Aproveitei e voltei a morar em Santos há alguns anos, buscando um pouco de calma e saúde mental depois de passar mais de uma década na grande metrópole. Passo grande parte do meu tempo em casa escrevendo, mas quando saio adoro ir à praia e sempre paro para comer um hamburguer no Master Veggie, meu restaurante vegano favorito da região. Aproveito também a proximidade que estou da minha família para assistir a um filme com a minha mãe no cinema, ir ao teatro com amigas ou então tomar um chá da tarde na casa da minha avó. E quais outros projetos podemos esperar seus para o ano? No fim do ano vou estrear a série que escrevi para a Disney+ O Amor Da Minha Vida, estrelando Bruna Marquezine e criada por Matheus Souza. Além disso, ganhei o edital Paulo Gustavo de audiovisual e vou fazer a minha estreia na direção cinematográfica ainda esse ano, em um filme de autoficção que vou gravar em Santos.