[[legacy_image_257816]] Mulheres que Correm com os Lobos: Mitos e Histórias do Arquétipo da Mulher Selvagem é um livro lançado em 1992 e, ainda hoje, uma referência para todas que se encontram em um processo profundo de (re)descobertas sobre si mesmas. Em um mundo caótico e acelerado, no qual facilmente entramos no piloto automático da vida, a obra da terapeuta junguiana Clarissa Pinkola Estés segue um best-seller ao nos ajudar a superar traumas, recuperar forças, desenvolver independência e reaprender a ouvir a intuição – no fundo, a gente sempre sabe a resposta. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! É um caminho de cura e de resgate de muita coisa que foi perdida em meio à sobrevivência da condição feminina, e de adaptações ao que uma sociedade patriarcal, determinada a padronizar para controlar, dizia ser o correto. A obra atravessa gerações. Minha mãe leu por volta dos 40 anos. Eu li aos 39, em 2018. Ali, começava uma jornada particular, que ficou evidente no ano passado, quando fui atrás de outras práticas que trariam respostas complementares para esse símbolo de poder que é a mulher selvagem. Fiz uma segunda viagem ao Peru que confirmou observações da minha primeira visita ao país, em 2016. Em suas civilizações antigas, como a nazca e a inca, as mulheres peruanas decidiam, lideravam e se permitiam o prazer do sexo tanto quanto os homens. Algo que se repete quando descobrimos histórias de outras culturas desmanteladas por colonizações. Na mesma época da viagem, participei de uma sessão de constelação familiar, um trabalho de reconciliação com vínculos familiares e de ressignificação de histórias ancestrais que nos acompanham sem nem mesmo nos darmos conta. Meses depois, estive em um laboratório imersivo de tantra. E aqui não é só sobre sexualidade. É sobre intimidade, espiritualidade e equilíbrio. A cereja do bolo aconteceu em outubro, em um retiro de quatro dias de sagrado feminino, movimento de conexão com nosso corpo, nossas emoções e nossos ciclos (como o menstrual), harmonizados com a natureza. O que nos desperta uma nova e libertadora consciência sobre repressões e padrões impostos às mulheres. Se sempre acreditei em tudo isso? Não. Cheguei a debochar, em uma conversa com uma amiga, de algumas trocas com um grupo de leitura de Mulheres que Correm com os Lobos. “Daqui a pouco, vão querer que a gente corra pelada na floresta”, disse eu. Mas quem se dedica a estudar o feminino, o feminismo, gênero e opressões que atravessam as mulheres todos os dias, chegará a esse lugar. A essa mística (que é ir além do racional). Não é colocar o peso de um “faça você mesma” na emancipação feminina. Há uma difícil estrutura socioeconômica, cheia de falhas e injustiças, que não permite a uma parte das mulheres essa busca de autoconhecimento. São mulheres cuja preocupação central é sobreviver. Portanto, precisamos de ações coletivas para todas saírem de emergências. Por outro lado, há grupos distorcendo conceitos do sagrado feminino, para, mais uma vez, colocar a mulher em um papel de submissão. Como se a energia feminina fosse apenas de cuidar e de doação. Também é. Mas vai muito além disso e de acordo com as fases que estamos vivendo e enfrentando. O retiro, em área de mata e natureza abundante no Interior de São Paulo, conectou desejos e conhecimentos que eu já sentia e constituía, ainda sem saber verbalizar. Tornou-me uma pessoa mais atenta às sensações e intuições que surgem em uma série de contextos. Permitiu-me ajudar mais mulheres a perceberem o próprio valor com generosidade e amor. Fechou um ciclo de entendimentos iniciados com o livro de Clarissa. E se eu acabei correndo pelada na floresta? Vou deixar para cada um interpretar.