[[legacy_image_211969]] Todas as mulheres da família, com mãos estendidas, unhas pintadas de vermelho, em direção à matriarca. Noventa e seis anos. Também ela de unhas vermelhas, nas mãos enrugadas de pele fina que indicam a beleza do tempo, do muito vivido. Essa imagem na rede social marcava a despedida de uma amiga querida à avó. Andrea escreve: “Obrigada, vó, por tantos momentos lindos, por tantas histórias, por tanto ensinamento”. Lembrei das minhas avós, com quem eu venho sonhando. Elas sempre aparecem nos meus sonhos em períodos de grandes decisões. É possível sentir a presença, e mesmo um abraço, o que me acorda no meio da noite, com a certeza de que estavam lá. Ninguém esquece como são esses abraços. Há o olhar voltado para mim, emoldurado em sorriso de ternura, que vai tomando distância nas brumas, a dizer: “Você sabe, meu benzinho… Você sabe a resposta”. Acordo novamente, em lágrimas. Não apenas à noite. Elas rondam o dia. Quando refogo cebola e alho no fio de óleo ou corto ao meio uma goiaba vermelha. Quando chove e o cheiro de mato e terra molhados do quintal despertam a memória. Quando enfrento o bater de uma onda forte no mar – e a vó continua lá, a me segurar. Amendoim japonês, suspiro, feira, lenços, manjubinha frita, asinha de frango. Mergulhar meus, então, diminutos dedinhos no pote de creme Pond’s – das minhas travessuras preferidas. Ao me enxergar no espelho, enquanto espalho o hidratante no rosto, percebo que faço os exatos movimentos que a vó fazia com o Pond’s. Ao contrário dos 96 anos da avó de Andrea, minhas vozinhas se foram mais cedo. E eu tinha tanto para perguntar... Mãe e tias me contam muita coisa. Mas queria entender a partir do coração delas. Vó, como foi atravessar um oceano, com uma menininha de 8 anos, rumo a um país desconhecido, sem saber se um dia reveria a família? Vó, como foi ter seis filhos e viver a dor de perder dois deles, os dois mais novos? Vó, as dúvidas e tristezas que volta e meia a gente carrega, você também carregou? Quantas delas são ancestrais? Quantas são de outras mulheres da família, que vieram antes de nós? Como faço para que essas dores parem em mim? Tenho tal poder? No fim das contas, as alegrias foram maiores? Não sei bem se elas responderiam com as palavras que eu esperava. Eram mulheres de silêncios. Não porque não tinham o que dizer. Mas porque circunstâncias as colocavam nesse lugar. Ou porque, pacificamente, compreendiam quando e para quem valeria a pena falar – uma lição que vai ficando tão evidente hoje. No dizer ou no deixar para lá, elas tinham razão. Inclusive, que molho de tomate caseiro é muito melhor do que o de caixinha. Vó, fui malcriada insistindo no molho de caixinha. Desculpa. Era aquela ânsia de liberdade dos 20 e poucos anos. Quisera eu estar ao seu lado na cozinha, aprendendo a fazer o molho direito, do seu jeito. Nunca vou saber. E apesar da minha malcriação, obrigada por continuar a me mostrar os caminhos nos meus sonhos.