[[legacy_image_169462]] “A gente conversa tanto sobre essas coisas de empoderamento, feminismo e tal. Por que fica achando legal esse tipo de seriado? Eu ainda fico emocionada com os caras tentando sentir que são perfeitos um para o outro, esses negócios feitos para encantar a gente… Me deixa cheia de pensamentos!” Minha risada alta se seguiu ao áudio de WhatsApp de uma amiga de infância na manhã de um domingo. A reflexão dela era sobre a série Bridgerton, em segunda temporada na Netflix. Aquele tipo de romance que, por mais independentes e convictas que sejamos de que não existe amor eterno, assistimos suspirando, torcendo pelo casal, aflitas pelos obstáculos que enfrentam, esperando a cena em que, finalmente, dá tudo certo. Na noite anterior, estávamos em um bar na região da Rua Augusta, em São Paulo. Entre as cervejas que ela pedia e as taças de vinho branco que eu tomava, falamos de amor. E percebi que nunca, mas nunca mesmo, a gente fala de amor sem também falar de dor. Sem histórias que começam com expectativas, lindas intenções e acabam em brigas, desilusões, decepções, rupturas. Violências. Não que tenhamos vivido apenas relações ruins. Pelo contrário. Mas há uma aspereza no amar que, me parece e mais do que nunca, vence as possibilidades de parcerias, de construções a dois, de continuação de escolhas, compromissos e promessas. Será que sempre foi assim? Ou estamos todas e todos frágeis demais, traumatizados demais, cansados demais para colocar energia nos relacionamentos? Não deveria ser simples sentar para conversar sinceramente sobre nossos (não) desejos, necessidades e sentimentos, sejam lá quais forem e de onde vêm? Quando será que a gente se fechou tanto em si, travando milhares de diálogos internos e imaginários com quem gostaríamos de falar, sem ser capaz de torná-los em conversas reais, olhos nos olhos, abraços e até lágrimas se necessário? Não sei não se dá para culpar pandemia, tecnologia e afins pela nossa incapacidade de abrir o coração. Acredito mais no resultado de gerações e gerações aprendendo e se moldando ao que não importa de verdade, a variados padrões – comportamentais, estéticos, morais – que nos paralisam diante das oportunidades de viver vínculos saudáveis, bonitos e tranquilos. A gente pesa o que não precisa. Curar essas feridas abertas não é fácil. Eu sei. É preciso muita terapia, mas também uma sociedade que nos liberte de amarras e cause menos medos. Enquanto o mundo ideal não vem (talvez nunca venha), é importante sabermos o lugar que ocupamos na vida de alguém. Sabermos se é recíproco. Quando alguém é importante para nós, é porque importamos essa pessoa para dentro de nós. Ela está conosco, seja onde for. Mas não vale a pena se o coração que carrega a importância é só o seu… Se continua sendo só o seu. Passado tem que ser referência, nunca residência dos afetos. Na outra ponta, que a gente faça o favor de não colocar em xeque coisas sagradas, como o carinho e a amizade que sempre existiram ou um convívio harmonioso com os filhos que nasceram de uma união. Em meio à dureza, é por isso que romances como Bridgerton são essenciais. A magia da ficção ajuda a passar o tempo enquanto a gente se refaz por dentro – e gasta uma caixa inteira de lenço de papel. Depois? Começar tudo de novo, claro! Até a próxima ruptura. Quem sabe... até finalmente o real amar.