[[legacy_image_169463]] Pamela Magalhães faz parte do time de psicólogos que se tornaram influenciadores digitais ao abordar as questões emocionais na web. Com cerca de 2 milhões de seguidores nas suas redes sociais, autora do livro Se Amar, Amar e Ser Amado e especialista no atendimento de casais e famílias, ela propõe na entrevista a seguir importantes reflexões e atitudes para se construir uma vida a dois mais saudável, feliz e duradoura e, assim, ainda se alcançar uma maior maturidade emocional. Acredite: as duas coisas estão mais do que relacionadas. Pamela também orienta como lidar com o término de um romance – algo que cresceu bastante durante a pandemia de covid-19 – e diz o que é necessário fazer quando se decide continuar com alguém depois de uma traição. Muita gente diz que está difícil achar alguém para se relacionar. Que análise pode ser feita disso?A gente vive a era da tecnologia, das redes sociais. Portanto, há pouco olho no olho. As pessoas ficam mais tempo teclando, só que uma relação vai além da mensagem no WhatsApp. Relacionamento é ficar cara a cara, envolve sentimentos. A teclada é apenas o começo de tudo. Noto que as pessoas têm dificuldade de lidar com a evolução do relacionamento, com o processo de troca, de enxergar o outro de verdade e administrar as frustrações. As pessoas andam craques nas ficadas, porém, conforme a relação engrena, demonstram desconhecimento até para lidar com suas habilidades socioemocionais, que envolvem a chamada inteligência emocional. Aí, a gente vai falar de empatia, de diálogo, de uma troca genuína. As pessoas também têm dificuldade para entender que a questão maior não está no outro e, sim, nelas mesmas. Como assim? Muita gente tem a tendência de querer mudar o outro, de buscar alguém perfeito. Mas vejo poucas pessoas empenhadas em si mesmas e se questionando: “O que posso melhorar em mim?” Quem amadurece mais do ponto de vista emocional e consegue lidar melhor com as próprias questões tende a construir relacionamentos mais justos e equilibrados. E não podemos esquecer que estamos numa era selfie. Ou seja, numa era de muita vaidade e de carência bastante inflamada. Numa era em que as pessoas querem ser vistas, percebidas. Só que também há mais superficialidade e uma maior valorização das características físicas. Com isso, as questões emocionais ficam meio sem espaço para serem exercitadas e desenvolvidas. O que reflete diretamente nos relacionamentos amorosos, não é mesmo? Sim. As relações andam ficando mais na aparência. Tem muita gente beijando na boca e fazendo sexo, mas os relacionamentos mais profundos e duradouros acabam sendo escassos. Qual é o segredo da relação duradoura?Vamos ponderar primeiro o seguinte: as novas gerações, muitas vezes, nem sabem o que é isso e, mesmo assim, dizem que não querem ter um relacionamento duradouro, porque associam a algo sem graça, cansativo, ultrapassado, que pede comprometimento. É bom deixar claro: para ter relação duradoura, você precisa trabalhar as suas habilidades socioemocionais. Não tem como construir uma história com alguém sem desenvolver a tolerância, a flexibilidade, a capacidade de ceder, a escuta, o diálogo, um olhar menos projetado do outro, a sensibilidade, a empatia. Além de considerar que o outro também quer ser feliz. Um relacionamento duradouro exige maturidade emocional. Por isso a maioria das relações costuma ser mais superficial. E não podemos ignorar a influência dos modelos que cada um de nós carrega. Pode dar um exemplo disso?Parte considerável das gerações mais novas possui pais separados. Então, essas pessoas podem achar que é difícil um relacionamento durar muito tempo ou questionarem se vale a pena se aprofundar numa relação. Sem falar que, quando temos como referência relacionamentos com separações dolorosas, podemos passar a nos relacionar de um modo mais superficial, para evitarmos nos pôr numa posição em que há chances de nos machucarmos ou nos decepcionarmos. A quantidade de separações aumentou bastante na pandemia. Qual o melhor jeito de lidar com o fim de uma relação? Quando saímos de um relacionamento, é normal nos depararmos com sentimentos de frustração, dor, rejeição, insuficiência, com a sensação de não sermos bons o bastante. Mas devemos ressignificar o que aconteceu e nos reestruturarmos, para que nos tornemos ainda mais fortes e mais maduros emocionalmente, com tudo o que aprendemos com aquela relação, independentemente de ela ter acabado por uma escolha nossa ou não. Nada é em vão, todos os relacionamentos agregam alguma coisa. Se aquela pessoa entrou na nossa vida, é porque houve espaço para isso. O que vivemos de bom com ela vai permanecer, mas devemos nos desapegar e trabalhar o que não foi tão bom. Qualquer término é um processo de luto, em que temos de nos permitir viver todas as emoções que permeiam esse momento até chegarmos a uma aceitação do que ocorreu e estarmos prontos para uma nova história, em carreira solo ou a dois. O que não é indicado nessa hora? Não se deve ficar emendando relações, já que é um modo de fugir da dor provocada pelo término. Também tem gente que se joga no trabalho e evita falar do assunto, que fica alimentando um inconformismo ou um sentimento de vingança, que stalkeia o ex ou que nutre a falsa esperança de uma volta. Quando não vivemos as emoções trazidas pelo término de um relacionamento, tendemos a ficar com feridas entreabertas, que, a médio ou longo prazo, provocam alterações de humor, instabilidades, depressão ou transtorno de ansiedade. O casal que continua junto após uma traição deve trabalhar que aspectos? Há casais que conseguem se reencontrar e se reformular. Isso depende muito da forma como os dois vão se olhar a partir da infidelidade e do sentimento que eles têm um pelo outro. Seja uma, duas, três ou 16 vezes, a traição sempre desestabiliza a relação. O mais importante é o casal, por meio de conversas delicadas e difíceis, encontrar denominadores em comum para seguir adiante. Além de se estabelecer mudanças que precisam ocorrer, é essencial que o fantasma da traição não seja relembrado logo na primeira discussão ou com frequência. Se eu decidi continuar com aquela pessoa, preciso realmente virar a página.