Na manhã do sábado retrasado, tive uma reunião de trabalho em uma cidade da região metropolitana de São Paulo. Saí cedinho, dentro de uma confortável margem de tempo para não correr o risco de atrasar. [[legacy_image_148650]] Pego um trechinho de trem, um trechinho de metrô e chego a um terminal para a etapa final em um ônibus intermunicipal. Mas cadê os ônibus? O trajeto não era novo para mim. Só esqueci de um detalhe: aos sábados, os coletivos rodam com intervalos maiores, além de algumas linhas terem sofrido alterações nos últimos meses por conta da pandemia. Esperei por quase 40 minutos e me atrasei. Não sei você, mas sigo em processo de readaptação de hábitos urbanos. Nunca imaginei que os meses isolada em casa, me deslocando o mínimo possível e para o estritamente necessário, impactassem de diferentes maneiras as percepções de lugares tão conhecidos e de como chegar neles. Ainda na mesma semana, fui à minha consulta anual na ginecologista, não longe de casa. Não lembrava qual ônibus pegar! Só na volta e após um rolê lembrei da linha que passava quase na esquina do consultório e me deixa, literalmente, na porta do meu prédio. Nosso cérebro é plástico, diz a Neurociência. Muda de acordo como é usado. Ainda nos anos 1960, acreditava-se que era um órgão estático, que funcionava relacionado à genética. Depois de muitos estudos, ficou provado que, ao longo da vida, criamos novas conexões neuronais. Necessidades e estímulos adaptam o cérebro às mais diferentes circunstâncias. Talvez por isso eu tenha me atrapalhado com o transporte público, que não usei como de costume. Mas não vivo mais sem novos hábitos que adquiri, como fazer supermercado on-line e acordar sempre entre 5h30 e 6h30 sem despertador – não importa a hora em que fui dormir. Para ser mais exata, eu quase sempre acordo às 5h49. É sério! Tudo isso significa que ainda tenho muito para aprender e desaprender para aprender novamente. Você também. Adaptações são uma constante no nosso cotidiano e as notamos com maior intensidade agora, porque fomos intimados a ajustar a realidade e sobreviver em meio a um vírus (tão ou mais adaptável do que a gente). Ainda calhou de o que parecia uma distopia acontecer quando já seguimos há tempos em um ritmo acelerado de transformações da sociedade, com toda a força da internet, do digital e das conexões possíveis a partir daí. Foi o que salvou parte de nós desde março de 2020 para tocar trabalho, estudos, entretenimento e outras atividades. Olhares críticos, porém, são indispensáveis a esse contexto. Bem-vindas pelos mais diversos motivos, a tecnologia e a conectividade ampliaram possibilidades, mudando completamente as formas de trabalho. Em muitos casos, também as condições de trabalho – para pior. São vários os exemplos. Cito um pelo qual tenho especial antipatia: portarias eletrônicas. Você chega a um condomínio sem ninguém na portaria, interfona, chamando uma central tipo telemarketing. Alguém, sabe a deusa onde, atende, pergunta o número do apartamento e libera a sua entrada. Isso deveria ser prático. Só que pode demorar. É bom preparar a paciência. Parece algo moderno, que gera empregos nessa central de atendimento. Mas que tipos de emprego? Sem esquecer que, para a portaria eletrônica se instalar, alguém, com menos acesso e recursos para se capacitar nesse atual e rápido mundo do trabalho, aumenta a fila do desemprego. Não devemos jamais bloquear as transformações, tão ricas. É preciso, porém, garantirmos que elas se concretizem como reais oportunidades para o maior número de pessoas. O que passa por políticas públicas e bom senso de instituições particulares. Tem tudo para ser bom, cada vez melhor. Desde que não torne a importância da adaptação mais um gatilho da exclusão e do desespero.