[[legacy_image_177987]] Ela me pegou. A covid-19 alcançou-me nesta semana. Cansada de correr dela por mais de dois anos e feliz por finalmente poder caminhar por aí sem máscara, acabei por subestimá-la. Ou por me superestimar, achando que era imune. Nos primeiros dias, bati no peito com certo orgulho, porque os sintomas foram leves. Três vacinas, uma vida sem fumar, alimentação regrada, mãos sempre limpas e um sem-número de cuidados que ainda eram mantidos – apesar de eu haver me permitido deixar a máscara em casa, na minha cabeça eram o motivo para que os efeitos dele no meu organismo fossem menos intensos. Mas esse bicho é rebelde, cruel. Permitiu que eu pensasse que sairia praticamente ilesa. Afinal, pensei, ele já me tirou tanto! Ao menos nesse momento vai me dar uma trégua. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Não deu. Mais uns dias e veio com toda a força, me derrubando. E depois de me derrubar, sádico, ainda me atropelou. Claro que foi impossível não sentir medo. Quem tem qualquer comorbidade ou já perdeu um ente querido para ele sabe do que falo. Decidi respeitá-lo. Porque, ao fazer isso, respeitaria também o meu corpo e o tempo que ele precisa para se recuperar. Meu corpo já me deu muito e ainda me dá. Ele merece esse tempo para enfrentar mais essa, pois já carrega muitas cicatrizes de guerra. E se há algo que volta e meia essas batalhas me ensinam, é que nunca se deve subestimar o inimigo. Mas a paz sempre retorna, de tempos em tempos, deixando esmaecer até os ensinamentos mais intensos e duros. Isso nos torna menos amargos, mas também menos vigilantes. Para mostrar o quanto pode ser estraga-prazeres, ainda me roubou a possibilidade de receber no aeroporto, que fica a 15 minutos a pé da casa onde moro, a minha prima, que chegou justo nesta semana a Portugal. Mas, entre as pequenas e grandes coisas que tirou de mim, sigo resistindo. Resisto porque tenho o rosto dos meus pais, do outro lado da tela, demonstrando estarem fortes e disponíveis, ainda que eu saiba que suas costas sangram, uma vez ou outra, bem no lugar onde nascem suas asas. Resisto porque tenho amigos cá e lá que se importam, que me estendem a mão literal ou virtualmente, que não se cansaram de ouvir minhas novidades ou lamúrias nos meus cinco minutos de “quero voltar para a minha terra, agora!”, que têm sido cada vez mais frequentes. Mas resisto principalmente porque o amor insiste em me encontrar. Mesmo com toda a bagunça deixada pelas tormentas que me assolam no cotidiano, ele sempre chega para me dizer que o juízo que faço a meu próprio respeito não é assim tão correto. Ainda bem. No último ano, o meu mundo virou de pernas para o ar, mas o amor me provou que tem uma capacidade de mutação maior do que qualquer vírus. Isso o torna a coisa mais poderosa e resistente do universo. Ele é capaz de colar até mesmo os milhares de caquinhos que julgávamos nunca mais serem possíveis de juntar. Por ele nos reerguemos e, ainda que sobrem partes vazias deixadas por pedaços que se foram para sempre e que não podem ser consertados, seguimos caminhando. Meu corpo vai vencer o vírus e seguir mais forte, de novo. Desconfio que pelas frestas e espaços vazios deixados pelas experiências marcantes que possivelmente entre mais luz. Quem sabe, ao vê-la, a esperança queira retornar, com mais força?