[[legacy_image_285050]] “Mas ele era um encanto…” A frase, com ar desolado, é de uma ex-sogra ao saber que o então genro agrediu sua filha com violência física, moral, psicológica e sexual durante anos. Ela não desconfiava. Ninguém da família desconfiava. A jovem esposa que era agredida, em meio ao desespero e ao medo, teve a presença de espírito de instalar um celular no quarto do casal com a câmera voltada para a cama. Em uma das cenas, difíceis de ver – e gatilho de muita coisa para nós, mulheres –, ele bate nela, que diz não ser o corpo que dói. “É a alma”. O sujeito era um juiz. O caso foi revelado em abril deste ano e aconteceu em Caraguatatuba, Litoral Norte de São Paulo. No depoimento que concedeu à polícia e replicado na imprensa, ela conta: “Parecia um príncipe (...) Eu fiquei muito apaixonada”. As agressões começaram seis meses depois de casados. “Eu sofri todo tipo de violência com ele (...) Usava de vários mecanismos para me deixar confusa (...) Eu estava na cozinha, fazendo alguma coisa, ele me dava um tapa na cara, puxava meu cabelo”. Quando jogamos no Google “marido agride esposa”, aparecem mais de 300 mil resultados na busca. Se focamos a pesquisa em “mulher filma agressões do marido”, são mais de 100 mil resultados. Ao clicar nos links para conhecer parte dessas histórias, há um fator perturbador em comum: no começo, todos eles eram encantadores. Flores e presentes caros, portas de carros e de restaurantes abertas, cadeiras puxadas para que essas mulheres se sentassem, contas de jantares jamais divididas. Os homens eram extremamente protetores, exibidores de virilidade, tomadores de todas as decisões, não deixavam a companheira se preocupar com nada. Eu sempre desconfiei do cavalheirismo. Em geral, as pessoas não percebem, mas é diferente da gentileza genuína. A ideia de cavalheirismo anda lado a lado com atitudes de dominação. Não é sobre cuidado. É sobre posse. O cavalheiro faz tudo pela sua “dama”, mas não está nem aí em tratar bem as pessoas. É o infeliz que sorri para você e, um segundo depois, é grosso com garçons e atendentes. Sinal de alerta máximo. Em pouco tempo, a grosseria se volta contra a mulher. Logo, vira violência. O homem gentil sabe ser companheiro, demonstra cuidado e carinho. Mas é legal com todo mundo, não só com você. Não é sobre superioridade e obediência. É sobre compartilhar. Nesta semana, viramos o mês. Agosto é mais lembrado pelo Dia dos Pais. Para mim, também é o aniversário do meu pai e de amigos queridos (sou cercada de leoninos), que me lembram todos os dias que encanto real é o que vem do companheirismo e do acolhimento. Este é, ainda, o mês que passou a ser conhecido como Agosto Lilás, de conscientização pelo fim da violência contra a mulher. Foi em 7 de agosto de 2006 que a Lei Maria da Penha, sancionada na data, se tornou instrumento de inibição e condenação para casos de violência doméstica. É uma homenagem à farmacêutica cearense Maria da Penha Maia Fernandes, que sofreu agressões do ex-marido por duas décadas e ficou paraplégica após ele tentar matá-la. O julgamento do caso demorou justamente por falta de uma legislação que atendesse de forma objetiva os crimes contra a mulher. Enquanto agosto não for o mês em que apenas celebramos o amor de (e por) nossos pais, se necessário, disque 180. E repense se cavalheirismo é mesmo o que procura em alguém.