[[legacy_image_163915]] Ela fazia 50 anos. O bolo surpresa, no meio do expediente, foi cercado de colegas recém-amigos, brasileiros e portugueses com as mais diversas experiências. A letra do Parabéns Pra Você ganhou uma versão luso-brasileira. Porque, como diz a letra portuguesa, era, sim, “dia de festa e cantavam as nossas almas dando à menina Rosa uma salva de palmas”. Mas também teve “é pique, é hora, rá-tim-bum”, sob o olhar de estranheza dos nossos colegas, que não entenderam nada do que aquilo significava. E teve o apagar de velas sem sopro, por conta da covid-19. Ainda teve choro, como não poderia faltar em nenhum aniversário longe de casa. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Aquele era o último dia de formação para o trabalho numa empresa aérea portuguesa. Formamos, em questão de dias, laços que se fortaleceram ainda mais naquele momento. Ver todos reunidos em volta dos PCs no último teste de fogo — atender clientes reais pela primeira vez — foi algo bom de ver. Foi estressante, cheio de ansiedade e com algum inglês enferrujado tendo que desenferrujar na marra. Mas foi bonito. Não havia distância entre nações ali. Pela primeira vez, eu acho, desde que aqui cheguei, vi isso em contexto de trabalho. E então, no meio da confusão, do barulho, das festas que fazíamos a cada atendimento bem-sucedido de um colega, Rosa se abriu. E quando isso acontece, a natureza clama para que contemplemos os segundos extraordinários do cotidiano que finge passar despercebido. Rosa me contou trechos importantes dos últimos 50 anos que a levaram até aquela sala cheia de computadores e sotaques. Ambas nascemos em Santos. Isso nos conectou e talvez tenha sido o gatilho para as lembranças que acabaram renascendo com força. De família humilde de origem portuguesa, a menina Rosa morou por muitos anos numa comunidade pobre do Litoral Paulista. Aos 17 anos, passou no vestibular da Universidade de São Paulo (USP). Nervosa e incrédula ao saber o resultado — afinal havia estudado a vida toda em escola pública —, correu para o primeiro orelhão e, ainda trêmula, com as fichas na mão, ligou cheia de alegria para contar aos pais a novidade. Foi o pai quem atendeu. O que ouviu dele foi: — Eu só garanto sua sobrevivência enquanto estiver sob o meu teto. Se quiser estudar e sair daqui, arrume um jeito. Água fria. Mas é com água que se regam as flores. Voltou à universidade e viu uma família se abraçando, feliz pela conquista da filha. Era de origem oriental. Rosa achou aquilo tão bonito que não resistiu: correu para abraçar a mãe da menina, parabenizando-a pela conquista da filha. Na verdade, foi esse o jeito que encontrou de conseguir o abraço que tanto queria. Aquela decisão ecoou por anos. Para garantir a sobrevivência, Rosa fez um pouco de tudo: vendeu de doces a amuletos. Concluiu a primeira graduação e fez outra. Só porque sim. Nesta altura, já era amiga da menina oriental e de toda sua família, que a acolheu como filha. Quando chegou a hora de Rosa ser mãe, foi na família da amiga que encontrou aconchego. Foi convidada pela mãe da amiga, a mesma que teve um abraço roubado por Rosa, a repousar na casa dela. Descanso merecido a uma mamãe que se sentia só, novamente. E então, o abraço roubado foi devolvido com juros e correção. Com sua bebezinha nos braços, Rosa ouviu, dessa vez, palavras doces. Aquelas que nutrem pessoas, animais, flores e todo tipo de seres vivos. Elas diziam: — Pode descansar, agora. Fique tranquila. Deixe-a comigo. Rosa, então, viu a cena que para sempre ficou registrada no seu coração. A mãe da amiga despindo-se e entrando com sua pequena recém-nascida num banho de ofurô especialmente preparado para ela. A água, agora, era quente. Terna. Como a vida pode ser. Falei que gostaria muito de chegar aos 50 anos como ela, porque a vejo poderosa! Ela me respondeu: — Não espere nada! Tudo que a gente espera pode decepcionar. Viva! Só viva! Eu entendi. Nos abraçamos. Sem perceber, Rosa me regou também.