[[legacy_image_297610]] Infelizmente, o suicídio se tornou um problema de saúde pública. Cerca de 12 mil vidas são comprometidas por ano no Brasil, o que representa quase 6% para cada 100 mil habitantes e coloca o País logo atrás dos Estados Unidos nesse triste ranking. De acordo com alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS), essa estatística vem crescendo e o problema se estabeleceu como a terceira principal causa de morte entre jovens brasileiros com idades entre 15 e 29 anos. Conforme dados do Ministério da Saúde, o perfil das vítimas é em maior parte homens negros entre 10 e 29 anos. Fora isso, 96,8% dos casos de suicídio entre jovens estão relacionados a transtornos mentais, como a depressão, seguida pelo transtorno bipolar e pelo abuso de drogas. Fatores como desemprego, sentimentos de vergonha, desonra, desilusões amorosas e antecedentes de doenças mentais também são identificados como riscos para o suicídio. “O Setembro Amarelo não é só uma cor ou uma data! Trata-se de campanha de conscientização, esclarecimento e desmistificação sobre o que é o suicídio, e por que devemos estar atentos aos sinais de depressão entre os jovens. Falar sobre saúde mental no mundo atual é urgente. No meio virtual, mais ainda”, reforça a psicóloga Leila Navarro, da Universidade Unigranrio, que fica em Duque de Caxias (RJ). A adolescência é um período de desenvolvimento e apresenta desafios únicos. Ainda que o jovem possa ter uma boa saúde mental, mudanças físicas, emocionais e sociais, bem como a exposição a fatores como falta de recursos financeiros, abusos ou violência, podem torná-lo ainda mais vulnerável a problemas de saúde mental. Segundo a OMS, metade de todas as condições de saúde mental começa aos 14 anos. Mas a maioria dos problemas não é detectada e, portanto, acaba não sendo tratada. Isso se deve à mistificação das patologias psíquicas, que ainda são negligenciadas por muita gente. O peso da depressãoA depressão é uma das principais doenças psiquiátricas entre os adolescentes e a falta de tratamento repercute na idade adulta, prejudicando tanto a saúde física quanto mental, além de limitar oportunidades futuras. Dentro do espaço escolar, por exemplo, é possível identificar quando um estudante apresenta sinais, que podem estar atrelados aos sintomas de doenças como ansiedade. De acordo com Leila Navarro, isolamento, desinteresse e agressividade são alguns dos sinais que podem, inclusive, se agravar com o passar do tempo. “O fortalecimento das competências socioemocionais desde a infância traz respostas importantes para o enfrentamento da situação. Quando a saúde mental é levada a sério na formação, a sociedade caminha com ações efetivas contra esse cenário trágico. A conscientização é a primeira parte dessa trajetória, mas o investimento direto em ações concretas é o que faz reverter esse quadro na prática”. Perigo na web As redes sociais e a internet de modo geral têm forte impacto na saúde mental, principalmente dos jovens. No Brasil, 66% da população, ou 140 milhões de pessoas, usa ativamente as mídias sociais, com tempo médio de acesso de três horas e 34 minutos por dia. Além de prejudicar a habilidade de interação pessoal, o uso excessivo da web e das redes sociais por adolescentes traz riscos potenciais, incluindo o compartilhamento de conteúdos inadequados, como pornografia, discriminação e ódio, assim como aliciamento moral e sexual, assédio, invasão de privacidade e ciberbullying. “A tecnologia e a utilização da internet são um caminho sem volta. No entanto, é importante que se ofereçam ferramentas de autoconhecimento para que crianças e adolescentes estejam preparados para aproveitar a parte boa da revolução tecnológica”, completa Fernando Gabas, fundador e CEO da Academia Soul e especialista em mindfulness (atenção plena). Para combater essa situação, a OMS acionou todos os países, incluindo o Brasil, para acelerarem a implementação do Plano de Ação Integral de Saúde Mental 2013–2030. O relatório da organização enfatiza a necessidade de mudanças de atitudes em relação à saúde mental, reorganização dos ambientes que influenciam a saúde mental e o fortalecimento dos sistemas de atenção, abrangendo lares, comunidades, escolas, locais de trabalho e serviços de saúde. Sugere ainda medidas como preparar pais, familiares e educadores para abordar o tema da saúde mental como parte da saúde integral. O auxílio de profissionais de saúde especializados é algo que pode fazer muita diferença para quem está em situação de vulnerabilidade. “A reversão desse quadro exige abordagem sistemática e integrada, que inclua educação, saúde e assistência social, para promover a saúde mental e prevenir transtornos, garantindo futuro mais promissor à juventude”, conclui Leila. Reconheça a depressãoNo mês da conscientização e prevenção do suicídio, o neurocirurgião e neurocientista Fernando Gomes, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), alerta sobre os principais sinais que podem indicar quadro depressivo: - Alteração de humor por, pelo menos, duas semanas Quando o humor muda de forma persistente, fazendo com que a pessoa se sinta para baixo e sem esperança na maior parte do tempo quase todos os dias por, pelo menos, duas semanas, pode estar ocorrendo uma desregulação cerebral de áreas relacionadas ao humor, impulsos e energia. Esse quadro tem como surgir em decorrência de algum evento negativo ou mesmo espontaneamente. “Cada vez mais sabemos que a depressão pode ocorrer mesmo em pessoas que não passaram por traumas e sofrimento”; - Cansaço excessivoOs níveis de energia da pessoa com depressão caem rapidamente e ela costuma ficar fadigada e sem forças, mesmo estando descansada. E essa sensação tende a persistir. “Tudo isso porque tanto a energia quanto a disposição física estão no cérebro, que é o órgão responsável por fornecer o vigor. Com a depressão, essas taxas ficam reduzidas e a pessoa perde até a vontade de falar”. Os impulsos e a motivação para fazer até o que mais gosta diminuem e a indecisão se evidencia, assim como o isolamento, a falta de planos e a ausência de vontade para interagir, se divertir, praticar exercícios e até para viver. “Esses sinais são comuns e indicam que a pessoa precisa de ajuda médica, já que ela não se sente bem por estar assim e não consegue dar a volta por cima”.