[[legacy_image_259315]] Rafaela Ferreira chamou a atenção do grande público por seu trabalho nas novelas Malhação ID (Globo), Poliana Moça (SBT) e Rebelde (RecordTV). Junto a isso, em suas redes sociais, passou a receber mensagens recorrentes de fãs que se sentiam representados por vê-la na TV e começou a abordar na web assuntos como autoimagem e autoestima, compartilhando com seus seguidores (mais de 3 milhões hoje em dia) situações em que sofreu preconceito por ser gorda e detalhes do seu processo de autoafirma-ção. Agora, a atriz estreia como escritora, com o romance Eu Só Cabia nas Palavras (editora HarperCollins), que tem uma protagonista gorda: a adolescente Giovana, que, há anos, sofre bullying e escuta ofensas gordofóbicas. Na entrevista, a carioca de 34 anos fala do seu primeiro livro, do engajamento no ativismo gordo e do que foi preciso para atingir o autoconhecimento. O que a levou a escrever o seu primeiro livro: Eu Só Cabia nas Palavras?Eu sempre gostei de escrever. Para mim, era uma forma de entender o que estava acontecendo comigo ou de expressar o que não conseguia falar. Em 2018, senti a necessidade de compartilhar algo mais profundo com quem me segue nas redes sociais, pois começamos a ter trocas diárias principalmente sobre autoimagem e autoestima. Resolvi fazer um romance focado na adolescência, por ser uma época em que todo mundo fica mais fragilizado e precisa se autoafirmar. Para mim, enquanto pessoa gorda, esse foi o momento mais difícil para ser quem eu sou. Trouxe para o livro muitas situações vividas não só por mim como pelos meus seguidores e amigos. Quando você percebeu que realmente tinha conseguido se autoafirmar?Aos 13 anos, encarei uma depressão profunda. Eu já tinha começado a fazer teatro na escola e queria cursar a faculdade de Artes Cênicas, mas sentia bastante medo de falar isso e não acreditava que podia ser atriz, por não me ver representada nas peças, séries, novelas e filmes. Me perguntava: “Quantas atrizes gordas existem? Haverá personagens para mim?” Também existia a pressão social. Ouvi clássicos como: “Desse jeito, você não vai encontrar namorado. Não vai ter sucesso; não conseguirá emprego”. Infelizmente, esse tipo de comentário ainda existe. A arte me salvou. Comecei a perceber que eu não era só um corpo, que podia viver as histórias que quisesse. Minha libertação total ocorreu quando entrei na faculdade de Teatro. Nela, realmente entendi que não devo duvidar de quem eu sou e, sim, reafirmar a minha identidade, porque, na arte, o que você tem de mais especial e único é justamente o seu lugar de brilho. Aí, conforme consegui papéis em novelas e obtive repercussão midiática, isso me deu bastante segurança. Me senti mais potente, mais forte, na direção certa. Mas até chegar a esse ponto esbarrou em preconceito dentro do meio artístico?A sociedade é gordofóbica. Portanto, o preconceito está presente em todos os lugares. O meio artístico não teria como ficar de fora. A pessoa gorda tem dificuldade de acesso a tudo: ao transporte, nas poltronas de avião, nas roletas, nas cadeiras com braços apertados, na moda... Só que, nos últimos anos, vem acontecendo uma grande evolução. Minha primeira personagem de destaque foi entre 2009 e 2010, no início das campanhas de diversidade. Lembra aquele comercial de sabonete com corpos de todas as cores e tamanhos? Eu vim nessa leva; essa onda do body positive (movimento de aceitação do próprio corpo) me levantou muito. A pessoa gorda tem mais espaço no meio audiovisual, mas ainda precisamos evoluir nesse sentido. O protagonismo é escasso, raro. Dá para contar nos dedos de uma mão quantas tramas há com protagonistas gordos que são interessantes. Ainda existe bastante fat suit (enchimentos, máscara e maquiagem para atores parecerem gordos para um papel), como vimos recentemente nos filmes A Baleia e Matilda: O Musical. Foi natural se tornar uma ativista dessa causa?Sim, porque, durante o processo de se autoconhecer e se entender, você passa a estudar, procurar iguais e referências. Foi assim que encontrei o que a gente brinca que é a gordesfera, com “d” mudo mesmo. Nela estão os ativistas, cientistas, advogados e psicólogos gordos que estão se organizando em um movimento. Quando vi, já estava envolvida na causa e querendo compartilhar informações que não costumam ser tão acessíveis. Junto a isso, também houve grande retorno das pessoas que me seguem nas redes sociais, com o comentário recorrente de que se sentem representadas por mim. Mas ainda hoje, quando você fala de gordofobia, tem quem diga que você está romantizando a obesidade e defendendo que as pessoas sejam gordas. Não é nada disso. O que nós defendemos é que quem é gordo não fique a vida inteira se martirizando e muito menos se escondendo por isso. A que tipo de informação teve acesso na gordesfera?Conheci o trabalho de gente como a Agnes Arruda, que escreveu O Peso e a Mídia, livro que reúne os estereótipos criados para personagens gordos, entre eles o que passa por um processo de transformação. A Malu Jimenez escreveu Lute como uma Gorda, e tem o Saúde Sem Gordofobia, criado pelas psicólogas Gabi Menezes e Lais Sellmer, que catalogaram médicos que não são gordofóbicos. A gordofobia médica é algo sério e que acontece bastante. Você chega com algum problema de saúde e o médico diz que não terá cura se você não emagrecer ou manda voltar dali a alguns meses, após perder peso. Eu vivi situações assim. Teve o caso do Vitor Augusto Marcos, jovem de São Paulo (de 25 anos) que não foi atendido em duas unidades de saúde por falta de maca para pessoas obesas e acabou morrendo. É inacreditável que, em 2023, algo assim ainda ocorra.