[[legacy_image_251301]] O ano de 2023 começou movimentado para a diretora Julia Rezende. Em um curto espaço de tempo, ela lançou Todo Dia a Mesma Noite, série da Netflix sobre a tragédia na Boate Kiss que está dando o que falar, e agora leva para os cinemas A Porta ao Lado, filme com Letícia Colin e Bárbara Paz sobre relacionamento aberto que rodou no período da pandemia com mais restrições. “Filmamos no primeiro ano da covid-19. Quando tivemos de parar o projeto por seis meses, devido à contaminação na equipe, fiquei de cama. Pensei que não íamos conseguir terminar. Foi um desafio enorme. Por isso, poder celebrar a estreia desse filme está sendo um prazer diferente, especial”, afirma a carioca de 36 anos, que já cogita um novo trabalho com Letícia Colin. “Temos pensado em abordar a maternidade, que é uma experiência que nós duas vivemos recentemente”. Na entrevista, Julia fala também das suas inspirações artísticas e da polêmica em torno da série sobre o incêndio na Boate Kiss. O que serviu de inspiração para o seu novo filme, A Porta ao Lado?Esse projeto nasceu depois que eu e a Letícia Colin fizemos o Ponte Aérea (2015). Como ele era um filme que já discutia como as pessoas estão vivenciando as relações amorosas, ficamos com muita vontade de continuar investigando esse universo. A Letícia e eu ficamos bem próximas, realmente tivemos uma conexão profunda e nos tornamos amigas. Por eu ser do time das parcerias, acho que, quando a gente encontra bons colegas de profissão, deve trabalhar mais vezes com eles. Inclusive, costumo repetir as equipes nos meus projetos. Brinco que somos uma companhia de cinema, porque vamos evoluindo juntos, experimentando novas linguagens e gêneros. O ponto de partida do A Porta ao Lado foi um debate entre eu e a Letícia com o seguinte questionamento: o que é traição para cada pessoa, para cada casal? Estamos lidando com isso de que jeito? Por exemplo, trocar mensagens com alguém nas redes sociais é mais ou menos grave? Convidei, então, a Patricia Corso e o L.G. Bayão, que são os roteiristas do Ponte Aérea, para escrever A Porta ao Lado. Ajudou a fazer o texto?Eu não escrevi, mas participei intensamente de todas as discussões e do processo de confecção do roteiro. Com esse filme, quero estimular uma reflexão, que as pessoas se perguntem como estão encarando as suas relações. Acho que esse longa tem algo, talvez, perturbador. Porque falar de relacionamento aberto mexe com uma ordem, de certa forma, preestabelecida. É isso que acontece com os personagens do filme. De repente, o casal (interpretado por Letícia Colin e Dan Ferreira) se depara com vizinhos que vivem uma relação aberta (papéis de Bárbara Paz e Túlio Starling) e aquilo dá meio que uma vertigem. Na minha opinião, é do desconforto que ampliamos o nosso olhar para o mundo. Todo Dia a Mesma Noite, série que você acaba de lançar na Netflix sobre a tragédia na Boate Kiss, também mexe com essa questão do desconforto, a ponto de ter sido criticada por parentes de algumas vítimas. Esperava tamanha repercussão do seriado?A gente sabia que se tratava de um projeto com potencial para ter grande repercussão e estimular um debate na sociedade, por ser uma história recente. Mas a dimensão que tudo tomou me surpreendeu, foi além das nossas expectativas. De repente, em todos os lugares em que eu ia, via as pessoas discutindo a série. Tive a sensação de que ela viralizou, o que é interessantíssimo e me deixou bastante feliz. O formato dramatúrgico da produção, em vez da roupagem de documentário, sempre foi a primeira opção de vocês?Sim. A série é inspirada no livro (homônimo) da Daniela Arbex. O produtor do projeto, o Tiago Rezende, que é meu irmão, teve a ideia de fazer essa adaptação e comprou os direitos. Acredito no formato que escolhemos, pois a ficção tem a capacidade de gerar empatia. Quando a gente vai pelo afeto, não tem como não se envolver com a história que está sendo contada. A dramaturgia permitiu que víssemos o pré-fato, ou seja, como eram aqueles jovens que estavam naquela noite na boate. Vocês devem ter mantido contato com parentes das vítimas. Mesmo assim, houve ameaças de processo. O que achou disso?A Daniela Arbex possui uma relação muito próxima com as famílias das vítimas e manteve esse laço mesmo depois de lançar o livro. Para você ter ideia, todo ano ela vai a Santa Maria (cidade do Rio Grande do Sul onde ocorreu o incêndio). Foi ela quem fez a ponte entre a gente e as famílias. Mas, durante a produção e gravação da série, não entramos em contato com os parentes. Só fomos conhecê-los perto do lançamento do seriado. Foi superemocionante. O que a gente tem escutado de todos os parentes com que conversamos é: “Muito obrigado por não deixarem nossos filhos serem esquecidos”. Foram comentários e mensagens bem afetuosos. Só que o nosso contato acaba sendo basicamente com as famílias das pessoas retratadas na série e há várias outras famílias de vítimas dessa tragédia. A minha sensação é de missão cumprida. Você nasceu em uma família de cineastas, não é mesmo?Eu nasci nesse universo: o meu pai é diretor; a minha mãe, produtora. Cresci em sets de filmagem, passei férias escolares em locações. Tenho lembranças de, na infância, correr por esses locais. Fiz até uma participação como atriz. Ver o meu pai escrevendo algo em casa na máquina de escrever e, depois, aquilo virar algo concreto... Essa mágica me pegou. Na adolescência, juntei um grupo de amigos e fizemos muitos curtas-metragens, em que nos revezávamos nas funções. O meu primeiro curta que se destacou foi sobre a Elke Maravilha. Em 2010, comecei a dirigir séries de humor para o Multishow, entre elas Meu Passado Me Condena, quando o Fábio Porchat ainda nem era conhecido. Aí, surgiu a oportunidade de transformar a série Meu Passado Me Condena em filme e, no meio do caminho, o Fábio lançou o Porta dos Fundos. Foi tamanho fenômeno que o longa bateu 3,2 milhões de espectadores. Isso alavancou as oportunidades profissionais e passei a dirigir diversos filmes.