[[legacy_image_176289]] Faço doutorado. Logo, sou estudante. Como tal, um dos meus direitos é pagar meia-passagem no transporte público da cidade de São Paulo. Resolvi fazer esse tipo de cartão de transporte, que conta com um subsídio para a quantidade exata de passagens equivalentes ao número de aulas que tenho por mês. E lá fui eu, dia desses, carregar meu novo bilhete em uma máquina na estação de trem perto de casa. Me confundi um pouco. Queria pagar no débito e para estudante só aparecia recarga com dinheiro – nem lembro a última vez que andei com dinheiro na carteira, totalmente rendida ao mundo das transações digitais. Pedi ajuda de um moço que estava ao meu lado. Me arrependi. “Mas VOCÊ é estudante?”, perguntou ele, me olhando de cima a baixo, espantado, bem no dia em que eu usava um delicioso e confortável vestido estampado que minha avó também usaria. “Sou. Por quê? Não parece?” Achei que ele ficaria um pouco constrangido. Que nada. “A SENHORA não parece estudante”, disse ele, levantando as sobrancelhas e duvidando de mim. Pensei em pisar no pé dele de raiva e sair correndo. Ou começar uma palestrinha sobre a importância do aprendizado contínuo em um mundo em constante transformação. Ou que não há idade para começar a estudar. Ou mandar ele estudar para abrir a cabecinha. Só consegui ficar quieta, desistindo de utilizar a opção para estudante e garanti o bilhete de passagem comum mesmo. Incomodou. Pela deselegância do rapaz. Por me lembrar que em dois anos de pandemia, vividos após o início dos 40 anos, eu de fato envelheci (a quantidade repentina e considerável de cabelos brancos não nega). Para a mulher, a cobrança pelo envelhecimento é sempre muito maior. E o principal: o que o rapaz fez é um preconceito conhecido como etarismo. Os termos ageísmo e idadismo também são usados. Uma discriminação que determina que, após certa idade, isso ou aquilo não é para você, não pega bem, não deve ser feito e blá-blá-blá. Algo muito utilizado para limitar carreiras brilhantes, de profissionais dedicados e talentosos, gente que muito contribuiu, mas que é despachada para casa mesmo tendo lenha para queimar. Não estou falando de alguém que chegou aos 90 anos. Há empresas em que a regra é não promover quem passa dos 50 anos. Cinquenta anos estão logo ali, gente! Tudo, no mínimo, contraditório em uma sociedade que batalhou tanto pelo ideal de longevidade, com esforços da Ciência, Medicina e Cosmetologia. Aliás, fica o apelo para a indústria da beleza: pare de dizer que o cosmético é anti-idade! Por que não pode ser pró-idade? Cada vez que abrem pela manhã e pela noite seus potinhos de creme facial nos quais se lê anti-aging em letras metalizadas, muitas mulheres internalizam que a corrida contra o tempo começou e, obviamente, serão as perdedoras. Ninguém chega longe na existência com pele de bebê. E se você construiu uma vida legal, se permitiu experiências e investiu em diferentes conhecimentos, será muito mais interessante ao longo dos anos. Azar de quem não concorda com isso. Não é fácil lidar com as evidentes mudanças físicas num mundo que tenta nos convencer de que nosso momento passou. Por outro lado, cresce o debate sobre quanto a idade não define ninguém, nem começos e recomeços. E que longevidade anda junto com plenitude em diferentes áreas, como emocional, financeira e sexual. Portanto, cuide de você como crê ser melhor e continue usando saia curta ou vestido de vovó quando e se desejar. Envelhecer pode ser morrer um pouco todo dia. Envelhecer pode ser viver mais a cada dia. Escolha seu lado – a segunda opção me parece mais gratificante e divertida.