[[legacy_image_201362]] Às 7h40 de segunda-feira, eu entrava em um dos hospitais estrelados da cidade de São Paulo. Aquele tipo de hospital que dá para confundir com um hotel de luxo, em que os porteiros usam terno bem cortado e quepe, imediatamente prontos para abrir a porta dos carros de quem chega. Não era meu caso. Cheguei a pé, vindo do metrô. Meu acesso a esse hospital é possível graças ao plano de saúde de uma universidade na qual sou professora. O check-in (!) foi feito 24 horas antes, no meu smartphone, por um chatbot que realmente merece ser chamado de inteligência artificial. Não era desses bots que engasgam no meio do processo e provam que ainda precisam de muito aprendizado de máquina. As mensagens eram até gentis. QR Code em mãos, a positiva experiência digital se repetiu diante do fator humano. Da parte burocrática à realização do exame (para acompanhar as mudanças naturais do organismo), toda a equipe foi acolhedora, afetuosa e didática. Já com aquelas roupinhas de paciente, me acomodaram em uma poltrona tão confortável que quase pedi para passar o dia ali e recuperar o sono perdido da noite anterior. Sensação que logo deu lugar a uma ansiedade crescente vendo o calibre da agulha por onde injetariam contraste. Não tenho medo de agulha. Sou doadora de sangue. Mas aquela agulha definitivamente não era amigável. Meu quase choro, também por lidar com um exame pelo qual nunca passei, não veio porque uma enfermeira foi designada só para conversar comigo. Segurando minha mão, esfregando devagar meu outro braço, olhando nos meus olhos marejados, ela me explicava que aquilo que eu sentia não era incomum. Contou cada etapa do procedimento. Sim, eu poderia ficar de olhos fechados. Não, não passaria de dez minutos. Nem precisei pedir para dormir na poltrona confortável. Me colocaram uma mantinha macia e cochilei mais de 30 minutos. Hora do exame. “Pensa num lugar bonito onde você quer voltar... Estamos aqui o tempo todo com você”, disse o técnico em tomografia. De olhos fechados para suportar a claustrofobia, eu percebia que lá dentro do túnel as cores mudavam. Rosa, azul, verde, violeta, amarelo… Concentrada nas cores, me dei conta do privilégio que é ter Medicina de ponta à disposição, somada a um atendimento humanizado. São pilares desse atendimento compreender o sofrimento do paciente, cuidar com empatia e apostar no tratamento individualizado. Indo embora, três quadras depois, na Avenida Paulista, observei as barracas de acampamento que se tornaram características da população de rua. Perto da entrada do metrô, vi um casal jovem com seu bebê de colo em uma delas. Um bebezinho tão pequeno. Pensei se essa família alguma vez teve acesso à saúde, a medicamentos. Nem à comida muita gente não tem mais. Ainda segurando o papel que confirmava a entrega do exame em casa, sem custos, como cortesia, desci as escadas do metrô. Finalmente, incapaz de parar de chorar.