[[legacy_image_232520]] Imagine uma máquina que, para funcionar, precisa de temperaturas dez vezes mais altas do que no centro do Sol, uma pressão atmosférica 300 bilhões de vezes maior do que no nível do mar ou uma força magnética capaz de erguer facilmente um porta-aviões. Há poucas semanas, 100 anos após ser previsto teoricamente, um experimento com essas grandezas finalmente demonstrou a viabilidade de um reator de fusão nuclear. Na prática, uma usina dessas é capaz de produzir energia global, ilimitada, praticamente sem poluição e rejeitos tóxicos. Mudar o mundo. É o que essa fusão promete. E essa história, que beira a ficção científica, foi marcada por becos sem saída, escândalos, espionagem, lances de puro bom humor ou terror. Um dos primeiros a propor a fusão do átomo como fonte energética foi Arthur Eddington, em 1920. Na ocasião, esse astrofísico britânico alertou: poderia ser a nossa salvação ou o nosso “suicídio”. E como qualquer avanço, começou com uma pergunta: como o Sol gera a sua energia? Depois, veio outro questionamento: como construir um aparelho capaz de “imitar” o Astro-Rei? Assim, as questões foram se sucedendo e o reator de fusão nuclear tomou forma nas pranchetas, até ficar muito parecido com um donut (uma rosquinha com um furo no meio). Um dos primeiros protótipos surgiu perto de 1940, em segredo, nos EUA. Consumia tanta eletricidade que só podia ser ligado à noite, para não causar um blackout. Não funcionou, mas o insucesso não afastou outros sonhadores. Juan Domingo Perón (1895-1974) foi um deles. Quando presidente, o governo argentino fez pesquisas sobre fusão em uma ilha isolada, e propagou-se vitória, que se comprovou uma fraude. Esses e outros “causos” fizeram com que alguns apelassem ao humor. Na década de 1950, o físico britânico James Tuck apelidou seu reator de Perhapsatron, algo como “talvez funcione e talvez não”. Com o tempo, dominamos a reação, mas sem nunca conseguirmos obter mais energia do que a necessária para “dar partida” no reator e mantê-lo funcionando. Foi isso o que pesquisadores norte-americanos anunciaram no início de dezembro. Um feito inédito. A produção de eletricidade foi pequena e por poucos segundos. Mas, enfim, a centenária teoria, cercada de ceticismo, funcionou. Avizinha-se, agora, uma nova fronteira na existência humana. Resta saber como vamos colocá-la em prática. IlimitadoPrimeiro vieram a fissão do átomo e as usinas nucleares, onde a energia é gerada pela divisão das partículas. Na fusão, ela surge da união de átomos. Para obtê-la, é preciso atingir temperaturas acima de 100 milhões de graus Celsius – no centro do Sol, são 15 milhões. Deve-se ter ainda pressão atmosférica 300 bilhões de vezes maior do que no nível do mar. E, por fim, manter tudo confinado em um reator. Nele, ocorre a fusão do hidrogênio, combustível da reação, elemento químico mais abundante do universo, comprimido a densidades 100 vezes maiores do que a do chumbo. Abastecer o Brasil por uma hora consumiria cinco litros de água do mar, de onde ele pode ser obtido. Quando? Quando esse futuro chegará para todos? Uma resposta, cautelosa, é no final do século. Muito tempo?! Talvez não. Cientistas que estudam os efeitos da fusão na sociedade avaliam que, mais do que a tecnologia, os maiores desafios seriam mesmo o domínio de nossas fraquezas e divisões. Eles defendem um novo formato de gerenciamento de prioridades, propiciando uma inédita distribuição de oportunidades. Caso contrário, com a atual governança, o domínio da fusão corre o risco de ser apenas a troca de uma fonte de energia por outra, como tem sido, como uma sina, ao longo da existência. E até lá?A fusão nuclear promete energia sem poluição. Tal contribuição, por si só, já valeria os bilhões que são investidos nessa tecnologia. Até que se torne viável, todavia, não se vislumbra qualquer ação efetiva para reduzir as fontes sujas (carvão, gás e petróleo) e tornar prioritárias as opções solares, eólicas ou a biomassa. Menos de 25% da eletricidade mundial têm origem renovável. Obter os 75% restantes significa desequilíbrio ambiental, comprometimento de recursos hídricos, da saúde coletiva e da biodiversidade.