[[legacy_image_256292]] Demorou até que eu identificasse a agressão. O incômodo ficou por dias corroendo algo aqui dentro, martelando noites a fio, até que eu me desse conta e aceitasse o fato. Recebi o telefonema de uma dessas empresas de bem-estar que me oferecia, por um preço acessível, uma sessão de massagem para descompressão na coluna. Era tudo o que eu precisava depois de uma mudança de casa que exigiu das minhas costas um esforço (e uma correção postural) além do usual. Decidi fazer esse agrado a mim mesma. Poucas horas depois, lá estava a profissional à minha porta. Achei estranho o fato de, ao telefone, terem me informado que ela traria uma maca para realizar o tratamento, mas, em suas mãos, vi apenas uma bolsa grande. Após se apresentar, ela foi logo entrando em direção à minha sala, ainda sem sofá. Perguntou onde faríamos a sessão e percebi uma falha de comunicação entre ela e sua colega. Na impossibilidade de qualquer outra alternativa, convidei-a para entrar no meu quarto, pois um dos poucos móveis que já temos é justamente nossa cama. Sem cerimônias, ela entrou, sentou-se e espalhou seus materiais. Eu, parecendo a visita, sentei-me na ponta da cama, enquanto ela se refestelava nos meus travesseiros… Expus o incômodo? Não. Engoli, para não constrangê-la. Ainda insatisfeita, ela continuou: — Há quanto tempo você está acima do peso? — O combinado com sua colega por telefone, neste momento, foi uma questão mais urgente: minha dor nas costas e não o meu emagrecimento. Eu sei que ambos estão interligados, mas também sei que emagrecimento é um processo e… — Quando conheceu o seu marido, você não era assim, era? — Era, sim. — Hum… mas ele não fala nada? — Não. Não teríamos nos casado se o meu peso fosse uma questão. — Mas, então, se você quiser emagrecer, será que ele não vai ficar chateado? Muitos homens se relacionam com mulheres fora do padrão por insegurança… E quando elas decidem emagrecer, a relação vira um inferno. — Não é o meu caso. Ele me incentiva a buscar soluções que me agradem, para minha saúde, para meu bem-estar. Estar acima do peso é o resultado de uma longa história relacionada ao restabelecimento da minha saúde, depois de quimioterapia e altas doses de cortisona. Meu corpo já fez bastante por mim até aqui e, depois de emagrecer uma boa parte do que engordei, foi preciso parar para dar um tempo para ele. — Mas já deu tempo, não é? Já está na hora de eliminar todo esse… Desculpe o termo: “lixo” acumulado. Essa foi a hora que a coloquei para fora da minha casa. Eu queria que fosse. Mas não foi. Ela ainda teve tempo de comprovar com o Miguel se tudo que eu havia lhe dito era verdade. Sem saber de nada do que conversamos, ele disse, enquanto me olhava com ternura: “Eu quero que ela faça tudo pelo bem dela, que priorize isso sempre”. Mas, dessa vez, eu não fiz. Não a mandei sumir da minha frente quando percebi a raiva e a decepção no olhar dela, diante daquele cenário. Só quando ela se deu conta de que nenhum daqueles preconceitos ia fazer morada ali, decidiu ir embora. Por vontade própria. A terra por onde ela passou ficou arrasada. Não pelo que tentou implantar, mas pela minha incapacidade de pará-la quando necessário. E eu só me dei conta disso dias depois, quando finalmente tive coragem de compartilhar com o Miguel tudo o que eu experienciei momentos antes de ele ser convidado para a conversa. Consegui chorar. Consegui prometer a mim mesma que isso nunca mais acontecerá. Mas receio, porque nós, adultos, sempre damos um jeito de quebrar as promessas, principalmente as que fazemos conosco. Tenho o hábito de sempre olhar para o outro como se nada do que ele fizesse fosse por mal. Por mais cruel que sua maneira de se colocar no mundo soe, eu sempre tentarei considerar contextos e inserir uma boa desculpa. Isso já me ajudou em algumas ocasiões, evitando conflitos desnecessários. Mas e os conflitos necessários? Aqueles que precisam chamar a atenção do outro, para que nossos limites sejam respeitados? Uma amiga muito sabiamente me disse recentemente que, se cedemos todas as vezes, as pessoas habituam-se a invadir-nos dia a dia, milímetro a milímetro, espremendo paulatinamente o nosso espaço. Se a invasão continuar a ser permitida, depois de algum tempo, teremos todos os nossos limites apagados do mapa. A nós, restará um pequeno território, onde apenas conseguiremos permanecer encolhidos. Achei a metáfora perfeita! Estarei, agora, com os olhos cravados nos meus limites, até que esse hábito se automatize. Afinal, há mais espaços do que desculpas para todos.