[[legacy_image_253079]] Ela chegou desconfiada. Com muito medo, escondeu-se no quarto. Será que iria se adaptar ao novo mundo? Pela abertura na parede, deu uma olhada lá fora e não reconheceu nada. Limitou-se a suspirar e, em seguida, viu um tremor percorrer todo seu corpo. Voltou a se refugiar nos lençóis azuis que já conhecia. Saiu do esconderijo improvisado algumas horas depois, forçada pela fome e pela sede. Mas, logo após o desjejum, voltou a ele. Não atendeu a nenhuma outra necessidade básica. Todo o resto poderia esperar as coisas ficarem mais estáveis no seu mundo. Um novo mundo, pensou. Não sabia se gostava dele, só que era o que tinha, agora. Ouviu a porta que dava para fora abrir-se. Olhou receosa para o verde que se estendia até onde suas vistas alcançavam. Teve medo, de novo, e preferiu não arriscar. Mas a curiosidade, o senso de liberdade, fez com que passasse a noite a fantasiar com as inúmeras oportunidades que a vida sempre poderia lhe oferecer, mesmo após tantas promessas incumpridas. Muitos chegaram à sua vida estendendo-lhe a mão para acariciar e prometendo uma vida melhor. Porém, quando conheciam seu lado selvagem, protestavam e lhe viravam as costas. Poucos estão preparados para conhecer o lado sombrio de quem quer que seja e, entre estes, só uma fração ainda menor está realmente disponível a permanecer após a descoberta. Na manhã seguinte, mesmo com o medo ainda entrelaçado ao seu pescoço, ela estava resoluta: enfrentaria o que fosse necessário. Ergueu-se e, ao sair do refúgio, uma claridade invadiu todo o ambiente, fazendo-a adivinhar o sol lá fora. Ouviu um barulho de vida e logo anteviu os vários tipos de pássaros, de penas e de metal, que estariam voando no novo céu. Tomou coragem e decidiu aceitar o convite para sair da caverna. A claridade, agora ainda mais intensa, cegou os seus olhos por um momento, mas logo o verde e o azul anil tomaram conta do seu campo visual. Desceu as escadas de pedra e lá estavam eles: pássaros, árvores, flores, carros, aviões, tratores, homens, mulheres, água, vento e terra sob seus pés. O cheiro era de mato e de chuva misturados. O mundo novo tinha um gosto de sonho recém-parido. Na calçada, quase em frente à nova terra, viu uma placa, na qual leram para ela a palavra “Guarda”. Explicaram que ali era o início de um novo limite, que tinha aquele nome. Ela gostou, mesmo sem saber direito o que aquilo significava. Sentiu-se protegida e era o que importava. Desbravou o quanto pôde, mesmo quando tudo escureceu, pois sabia que podia contar com a quase sempre presente bola branca brilhante, que agora estava acompanhada por centenas de luzinhas acesas espalhadas lá em cima. Diante daquele espetáculo, subiu no muro, enfim, e manifestou ao mundo o seu contentamento com um alto e longo miado. Maggie era, sim, uma gata feliz.