[[legacy_image_203018]] Sou fascinada pela língua portuguesa. Uma das coisas que mais me diverte é descobrir os novos significados das palavras que podemos encontrar pelos países que compartilham conosco o idioma. Assim que cheguei a Portugal, muitos brasileiros me preveniram de uma série de expressões que não devo dizer, em hipótese alguma. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Se eu quiser procurar um trabalho temporário, por exemplo, eu farei um trabalho extra. Nunca, jamais, bicos. Não vou explicar com detalhes o que significaria uma pessoa que vive de bicos em Portugal, mas diria que os moralistas jamais aprovariam este tipo de atividade laboral. Além disso, músicos gaitistas jamais podem dizer o que tocam. Se decidirem fazer bicos, então, construiriam uma frase que geraria um desconforto tão imenso que seria digno de excomunhão. Mas o oposto também existe. Há um vegetal muito comum na culinária portuguesa, cujo nome me faz lembrar as letras de alguns funks que minha sobrinha vez ou outra coloca para, digamos, me apresentar (mesmo contra minha vontade). Todas as vezes que eu ouço que o prato leva este vegetal, eu instintivamente penso em tapar os ouvidos, óbvio, depois do ataque de riso. Força! A gente ouve sempre nos diálogos. A primeira vez que ouvi, estava entrando em um restaurante e a pessoa disse isso, indicando o caminho e me dando passagem. Achei que a porta estaria emperrada e coloquei bastante força para abri-la. Quase voei pelo outro lado! Poderia ter sido um “pode passar”, um “continue” ou um “vá em frente”. Mas o “força”, descobri, reúne tudo isso. Um amigo me disse estar na ronha. Erro de digitação, pensei: ele deve ter tentando dizer que ainda estava deitado, na fronha. Já mais esperta, consultei o dr. Google. Entendi que existe uma palavra para traduzir a total ausência de vontade de trabalhar, o que me fez ficar maravilhada e evitar ao menos um constrangimento naquele dia. Não posso, contudo, dizer que consigo evitar todos. Na fila da padaria, com o celular descarregado – e por isso sem a muleta do Google –, comecei a pensar em como pediria pão. Foi no momento agudo da pandemia e a padaria não permitia que os clientes entrassem. Eu não poderia sequer usar o recurso de apontar, que sempre me salva. Chegou minha vez e não tinha a menor ideia de como pediria duas “médias” – aliás, saudade de poder dizer isso numa padaria santista. Decidi arriscar o nome que me parecia universal: pão francês. Meu mundo caiu. Os outros lugares do mundo o chamam de pão brasileiro. Pão brasileiro! Como eu nunca fui informada disto? O atendente riu da minha perplexidade e ainda completou: porque és brasileira! Ri de volta sem saber se era uma piada ou uma provocação. Talvez as duas coisas. O que me confortou foi manter o sigilo sobre a nossa pizza portuguesa. Mas o número um em fofurice é o “ora essa” que sempre chega em resposta a um obrigada/o. Para minha sorte, é uma expressão bem comum, que substitui o “de nada” e que, dita sempre num tom cordial e meigo, faz até os mais ranzinzas parecerem doces. É uma espécie de “imagina!”. Todas as vezes que digo isso, aliás, eles ficam parados me olhando. Acho que, justamente, tentando imaginar o que eu quis dizer com aquilo. Mas até hoje ninguém me perguntou: “imaginar o quê?”, embora eu saiba que muitos sentem vontade (uma amiga portuguesa me confessou isso). O fato (ou facto) é que vou descobrindo, a cada dia, uma nova forma de me reapaixonar pelo meu idioma. Franceses e italianos que me perdoem, mas já escolhi a língua que é, para mim, a porta-voz do amor.