[[legacy_image_334484]] Há muitos filmes em Pobres Criaturas. Da fantasia steampunk cheia de estilo ao horror bizarro, passando pela comédia e pelo drama, tudo isso sempre misturado à jornada de descoberta - do mundo e de si mesma - de uma jovem mulher. Todos estes filmes me impressionaram muito, tanto pelo aspecto artístico quanto pelos questionamentos que a história provoca. O filme, que concorre a 11 Oscars este ano, está em cartaz nos cinemas da região. A história de Bella Baxter (Emma Stone, excelente) é tudo, menos doce: grávida de um bebê que não deseja e vivendo um casamento infeliz, resolve tirar a própria vida. É resgatada por um cientista (Willem Dafoe, em seu personagem mais doce e delicado) - meio médico, meio louco - e trazida de volta à vida em uma cena à la Frankenstein, só que com o cérebro de seu bebê no lugar do seu, o que, na prática, “reseta” sua existência. O corpo e o rosto são dela, mas a mente está vazia, pronta para absorver todo o conhecimento do mundo e sem quaisquer freios sociais ou limitações morais. Ela é mantida, desde então, quase uma prisioneira dentro de um mundo muito particular em que galinhas com cabeça de porco ou cachorros com cabeça de pato são coisas naturais e acompanhada em sua evolução pelo próprio criador, a quem chama de God (deus) e prometida em casamento ao pacato assistente do cientista. A questão é que o tempo passa, Bella vai aprendendo novas palavras, desenvolvendo uma visão de mundo própria e descobrindo aspectos que não conhecia sobre si mesma, como a sexualidade, algo que vai ser um elemento até compulsivo em sua trajetória. Seu desejo por aventuras (sexuais ou não) a acaba levando a embarcar em uma viagem de navio ao lado de um advogado sem caráter (Mark Ruffalo) que sai de Londres, vai para Lisboa, Grécia, Paris e volta a Londres. Ele vai se revelar um amante possessivo, ciumento e sem a menor noção do ridículo, que gosta de se achar o máximo, mas entrega muito pouco em qualquer sentido. Aliás, todos com quem Bella se relaciona na vida - antes ou depois de seu “renascimento” - têm muito forte esse desejo de dominação e manipulação. Homens e mulheres. Tudo em Pobres Criaturas vai do onírico ao bizarro, mas sempre com um humor latente que deixa tudo um pouco mais leve, também uma marca do diretor grego Yorgos Lanthimos, que tem um estilo muito próprio e que aqui lembra - vagamente - alguns filmes da carreira de Tim Burton (se ele ainda fosse um diretor talentoso). Destaque para um momento muito especial em que se ouve não apenas a língua portuguesa na história, mas um fado bem choroso - O Quarto, da cantora Carminho - que deixa Bella estupefata com a beleza da canção, pouco antes de testemunhar uma briga de casal bem pouco romântica. Destaque também para a cena em que Bella descobre que o mundo também esconde sofrimento, tristeza e pobreza, ao ser apresentada a uma favela. Os mais sensíveis vão preferir não ver as cenas com cadáveres (estamos falando de Frankenstein, afinal) e alguns mais pudicos vão se incomodar com as inúmeras cenas de sexo, que renderam à atriz Emma Stone muitos elogios pela entrega ao papel, que é de fato um de seus melhores. E os questionamentos que o filme provoca, sobre a identidade feminina, empoderamento e liberdade, são muito mais efetivos e inteligentes do que em Barbie. Termino falando da direção de arte, o melhor aspecto da produção. Cenários, figurinos, maquiagem, fotografia, tudo num alto nível difícil de encontrar em filmes americanos (este é co-produção com Irlanda e Inglaterra). Justificáveis as 11 indicações ao Oscar, embora em um ano no qual o nível dos filmes é mais alto e que tem em Oppenheimer (13 indicações) o principal favorito. Mas ganhando ou não o Oscar, é um filme diferente, fora da caixinha, que definitivamente não é para qualquer público e que você vai amar ou odiar. Sem espaço para meio termo.