[[legacy_image_209950]] “Só falta falar”. Todos que conheço, invariavelmente, assim se referem aos seus cães ou gatos. Já houve época, porém, que esses eram seres considerados sem qualquer capacidade, assemelhados a máquinas. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! O filósofo francês René Descartes entra nesse contexto. Ele não só defendia que os animais não pensam, como acreditava que as máquinas jamais seriam capazes de interagir como seres humanos. A ambos faltava o que o filósofo chamou como alma. Quase 400 anos depois, a separação homem-máquina vai se desfazendo e a Inteligência Artificial (IA) evolui a ponto de poder nos dar indícios até mesmo de como pensam os animais. É o que defende um grupo de pesquisadores norte-americanos. Eles uniram a IA com exames de ressonância magnética. Para isso, treinaram os animais (e os seus donos) para que fosse possível obter imagens do cérebro de um cão assistindo a um vídeo – tudo isso dentro do tubo do aparelho de ressonância. Todavia, mais do que as conclusões, assim como o método de pesquisa (em 2013, um estudo com ressonância sugeriu a existência de até 70% de resultados positivos falsos), o que acaba chamando mais atenção são as possibilidades. Sim, seria muito interessante compreender os cães (gatos, porcos, cavalos, vacas...) com alto grau de acerto. Mas, além do ponto de vista prático, isso abre desdobramentos culturais – e por que não filosóficos? Os animais foram a principal força motriz por séculos e, ainda hoje, eles respondem por 40% do consumo global de proteínas. Para isso, uma visão mecanicista, mesmo que criada há séculos, separando humanos de animais, tornou aceitável essa realidade. Mudar essa visão, portanto, pode ser um dos resultados desse tipo de estudo. Quem sabe nossa empatia, resultado da razão com a emoção, possa um dia ter um conceito mais amplo... RespostasOs cientistas já identificaram regiões do nosso cérebro que reagem a determinados estímulos. Apesar da diferença anatômica, eles buscaram similaridades nos cérebros dos cães. Isso foi feito com imagens de ressonância magnética, nas quais um software de Inteligência Artificial traçou padrões que pudessem ser relacionados a esses estímulos. Para tanto, fizeram filmes, com a câmera na altura média de um cachorro, com cenas como de pessoas, jogos, pássaros. Três cães foram escaneados enquanto assistiam aos vídeos. Os resultados, entre outras suposições, sugerem que, enquanto os seres humanos focam nos objetos de uma cena, os cães ficam mais atentos às ações. Seria o instinto imperando, falando mais alto. Um cachorro, como um lobo no ambiente natural, não deveria se distrair com parte da cena. Um luxo humano, que pode ter aprimorado certas habilidades, talvez em detrimento de outras.