[[legacy_image_217052]] O reaparecimento da poliomielite no mundo e o aumento do número de casos de meningite no Brasil estão relacionados com a falta de vacinação. A pediatra Marcia Rodrigues faz o alerta. A poliomielite é uma doença que já estava praticamente erradicada. Por que há esse risco de reintrodução do vírus no Brasil e em outros países? A poliomielite, doença que pode causar paralisia irreversível, tem como ser prevenida com vacina. A queda na cobertura vacinal dessa e de outras enfermidades, como a meningite, está colocando a população em risco. A Sabin é um imunizante oral de vírus vivo atenuado, que quase conseguiu acabar com a pólio no mundo, justamente pela facilidade que tem de aplicação e transporte. Como é em gotinhas, não precisa de seringa, de agulha nem de treinamento especial da equipe de saúde. Devemos sempre prestar todas as homenagens ao americano Albert Sabin, médico responsável pelo desenvolvimento da vacina oral contra poliomielite. Eu o conheci na Casa da Esperança de Santos há muito tempo e participei de várias campanhas da “vacina da gotinha”. A mudança para o imunizante injetável e a pandemia, entre outros fatores, contribuíram para a redução da cobertura vacinal e, consequentemente, abriram espaço para o ressurgimento de doenças. Por que muitos países estão deixando de vacinar as crianças? Eu me formei faz 30 anos e tive colegas de escola que possuíam paralisia infantil. A sogra do meu filho, inclusive, tem sequelas da doença. Hoje, a nossa equipe paralímpica de basquete conta com jogadores que são limitados fisicamente pela poliomielite. É uma doença muito importante e que pode servir de exemplo para que a gente valorize as vacinas. As pessoas têm memória curta! Muitos pais de hoje, que não tiveram contato tão próximo com a doença, acabam sentindo mais medo da vacina do que de uma enfermidade absurdamente grave e que limita tanto os pacientes. O que não faz o menor sentido. Alguns já estão esquecendo até da covid-19 e de como as pessoas lutaram por esse imunizante. Hoje em dia, já temos, inclusive, vacinas mais modernas e de vírus inativados contra a pólio, não é? A Sabin é feita de vírus vivo e, portanto, eficaz. No entanto, com a doença mais controlada, fomos buscar imunizações mais seguras, que são as inativadas, ou seja, feitas com vírus morto. A IPV, usada hoje em crianças menores de 6 meses, é inativada e injetável. Nesse caso, mesmo as pessoas com baixa imunidade, com aids ou que utilizam drogas imunossupressoras (que controlam doenças autoimunes, como reumatismos, esclerose múltipla, psoríase) também podem tomar. Poder melhorar o desempenho e a segurança dos imunizantes é sempre o sonho de todos. Uma vantagem da vacina oral para pólio (as gotinhas) é que ela acaba sendo eliminada nas fezes e, como possui vírus vivo atenuado, fica no meio ambiente. Isso gera uma vacinação indireta para o resto da população. Principalmente nos locais onde há esgoto a céu aberto. Essa vacina promoveu uma imunização em massa e isso foi muito importante na época em que tínhamos muitos casos de pólio. Hoje, algo assim não é mais desejável. A vacina utilizada atualmente é mais segura e eficaz. Existem países em que a poliomielite ainda é um problema de saúde pública? Temos a poliomielite selvagem em alguns países. Por exemplo, no Afeganistão, onde a taxa de cobertura vacinal é muito menor do que aqui. Lá, existem casos graves da doença e isso pode ser importado para o Brasil e colocar a nossa população em risco. Não devemos parar de vacinar! A gente sabe que nenhuma vacina garante imunização para a vida inteira. Daí a importância dos reforços. A de covid, por exemplo, tem curtíssima duração. Já a do tétano pode durar até dez anos, mas não é eterna. Os imunizantes vão melhorando com o tempo e mudam de acordo com as necessidades epidemiológicas e com a situação de cada país. Há sempre uma evolução, como acontece com os antibióticos, os remédios quimioterápicos e tudo na Ciência. De qualquer jeito, é muito importante manter altas coberturas vacinais, porque nem os antibióticos salvam mais do que as vacinas. O aumento de casos de meningite e até do vírus influenza aqui na nossa região também é decorrente da queda de imunizações, já que as duas doenças contam com vacina? Com relação à meningite, temos uma baixíssima cobertura vacinal no País. Foi uma vacina introduzida no Brasil em 2009, só para crianças até os 2 anos de idade. Há cerca de dois anos, uma dose de reforço foi introduzida no Programa Nacional de Imunização (PNI), gratuitamente, dos 11 aos 12 anos de idade. Mas, nessa faixa, mais da metade da população ainda não foi vacinada. Por isso, temos aumento do número de casos de meningite meningocócica do tipo C. Cada vez que isso acontece, há um desabastecimento, podendo causar maior dificuldade para a compra de imunizantes. Estamos, sim, tendo um surto de influenza A em Santos e a cobertura vacinal da doença é baixíssima. A lição é que não podemos esperar que um caso de alguma doença que pode ser prevenida apareça e, muito menos, que evolua para um surto. Temos que manter as vacinas em dia, porque não sabemos qual vai ser a próxima epidemia que enfrentaremos.