(Adobe Stock) Ser pai ou mãe é uma jornada cheia de descobertas, mas também repleta de palpites, conselhos e cobranças vindas de todos os lados. Parece que, assim que um bebê nasce, junto com ele vem uma enxurrada de “você deveria fazer assim”, “tem que ser dessa forma”, “na minha época era diferente”. “E, apesar de algumas dessas opiniões terem boas intenções, a verdade é que podem acabar atrapalhando mais do que ajudando”, explica a psicóloga Bruna Rodrigues, que é especialista clínica pós-graduada em psicanálise infanto-juvenil. Hoje, com tanta informação disponível e uma sociedade hiperconectada, os conselhos nem sempre chegam de forma acolhedora. “Muitas vezes, surgem em momentos inoportunos ou vêm carregados de julgamentos, o que pode deixar os pais sobrecarregados. Nesse cenário, há uma pressão constante para atender a expectativas externas que, na maioria das vezes, não refletem a realidade ou os valores de cada família”. O segredo, segundo a especialista, está em saber filtrar. É claro que algumas sugestões são valiosas, como lembrar que ‘é preciso se alimentar bem’, ‘deixar outras pessoas ajudarem’ ou que ‘errar faz parte’. “Esses conselhos tocam em questões fundamentais, principalmente no que diz respeito ao bem-estar mental e emocional dos pais. No entanto, quando os “tem que” começam a impor padrões de perfeição inatingíveis, o efeito é justamente o oposto do desejado: em vez de ajudar, eles aumentam o peso da responsabilidade e a culpa”. Filtro emocional Ela aconselha que é importante que os pais desenvolvam um filtro emocional para lidar com a sobrecarga de conselhos. “Embora muitos palpites venham de pessoas bem-intencionadas, é essencial refletir se eles realmente fazem sentido para a realidade da família. Caso contrário, não há problema em simplesmente agradecer e seguir em frente”. Bruna ensina: “Aprender a dizer não sem culpa é libertador e ajuda a aliviar a pressão de atender a expectativas externas”. Isso é especialmente relevante em casos de interferência de familiares, onde o afeto e a proximidade podem dificultar a rejeição de conselhos. Ainda assim, ela complementa, “cabe aos pais decidir o que faz sentido e assumir a responsabilidade por suas escolhas, afinal, ninguém conhece melhor os filhos do que eles próprios”. Crianças confusas Outro aspecto que merece atenção é o impacto que esses múltiplos palpites podem ter nas crianças. Quando uma criança recebe ordens e orientações diferentes de diversas pessoas, ela pode se sentir confusa e insegura. “É fundamental que haja uma coerência na criação, com valores claros e consistentes, para que a criança cresça com confiança e segurança. Essa coerência é a base do seu desenvolvimento emocional e mental”. Além de tudo isso, é importante lembrar que as críticas, principalmente as dirigidas às mães, podem ter um efeito devastador. O acúmulo de julgamentos, sejam eles sutis ou explícitos, pode gerar exaustão, e essa carga emocional, muitas vezes, acaba sendo transferida, de forma inconsciente, para os filhos. Irritabilidade, impaciência e estresse podem ser consequências diretas desse processo. “No final das contas, criar filhos é, acima de tudo, um exercício de autoconhecimento. Quando os pais estão claros sobre seus valores, suas limitações e suas expectativas, o processo se torna mais leve”, diz Bruna, ressaltando que é preciso aceitar que nem tudo está “sob nosso controle e que, às vezes, falhar faz parte da jornada”. Para finalizar, a psicóloga alerta: “Talvez o mais importante seja ouvir as crianças, pois entender seus desejos e necessidades também faz parte dessa caminhada. Afinal, elas também têm suas próprias experiências”.