[[legacy_image_290568]] Gostaria de atirar o resultado do meu teste de testosterona na pessoa que criou a falsa afirmação de que os 40 são os novos 30. Minha médica me disse que o hormônio estava começando a cair “só um pouquinho”, mas já poderia causar, além de baixa libido, perda de energia, cansaço, entre outras coisas que não me lembro (nunca) de ter sentido aos 30 anos. Isso aconteceu dois dias depois de o reumatologista me diagnosticar com artrose no pé direito. Enquanto ele explicava do que se tratava, eu reparava mais nos fios grisalhos que despontavam do meu couro cabeludo, vendo a minha imagem refletida na tela da videochamada. Depois dessa posição, fiquei com dor na coluna, fui ao ortopedista e descobri um bico de papagaio. Logo eu, que tenho gatos em casa. Já o gastroenterologista (veja só como tenho visitado médicos ultimamente) me contou que as mulheres de 40 correspondem, fisiologicamente falando, às de 20 do século passado, porque, assim como foi com a minha mãe, as de 40 daquela geração já tinham filhos crescidos, viraram matronas, hipertensas e diabéticas. Hoje não. O whey protein faz parte da dieta – depois das 18 horas, só proteína. Fritura uma vez ao ano, nas rabanadas no Natal. Na agenda, ginástica funcional, pilates e ioga. Sim, há um preço. E nem todo mundo paga, literalmente, por ele. Quem foi mesmo a pessoa que afirmou que “os 40 são os novos 30”? Quanto a mim, vários indícios denunciam que este corpo que habito mudou. Mesmo sendo do tipo que manteve o peso e os longos cabelos, minhas bochechas ficam felizes às custas de visitas à dermatologista. As nádegas gosto de comparar com as ladeiras do bairro onde moro em São Paulo, em modo descida. Estão declinantes. Conto isso com certo pesar na caneta. Perceber a mudança do meu corpo não é uma sensação agradável. Mas isso não quer dizer que busco voltar ao que já fui aos 30 anos. A antropóloga Mirian Goldenberg, no livro O Corpo como Capital: Estudos sobre Gênero, Sexualidade e Moda na Cultura Brasileira (2007), relatou uma pesquisa aplicada em brasileiras e alemãs. As brasileiras têm aparência muito mais jovem do que as alemãs, mas se sentem mais velhas e desvalorizadas, e revelam como a decadência do corpo as abala. Já as alemãs acham uma falta de dignidade uma mulher querer parecer mais jovem ou se preocupar em ser sexy, uma infantilidade incompatível com a maturidade esperada para uma mulher nessa faixa etária. Elas valorizam muito mais a realização profissional, a saúde e a qualidade de vida. Para elas, a vida deve começar aos 40 anos, como dizem por aí. O que faz muito mais sentido do que tentarmos retroceder ao que já passou. Até quando vamos procurar ser o que não somos ou o que já fomos buscando uma fonte da juventude? Até quando não aceitaremos que o tempo passa e que, além de seios flácidos, ele traz também outras vivências como estabilidade profissional, equilíbrio nas escolhas e felicidade nas pequenas coisas? Por que continuamos tentando voltar ao passado se é o futuro que nos aguarda? Os 30 são os 30 e os 40 são os 40. Bola para frente em direção aos 50, 60, 70 e todas as alegrias e surpresas que essas décadas devem nos trazer.