[[legacy_image_260654]] Noite de sábado de chuva torrencial. Charlotte, minha doguinha, está debaixo da mesa da sala. Jeannie é um Gênio, minha gatinha, se encontra refugiada embaixo da cama. Um miadinho de desespero, no entanto, me chamou a atenção entre os sons da tempestade. Espiei pela janela. Lá estava um gatinho bebê, em pânico, abrigado perto da roda de um carro. Fiquei com o coração apertado, mas não sabia como tirá-lo dali, justo naquele momento. Pedi a Gaia e a São Francisco que me permitissem encontrá-lo no dia seguinte. Nada dele no domingo. Na segunda-feira, desci ao estacionamento do prédio munida de ração e caixinha de transporte. O pequeno estava encolhido, assustado, em um canteiro. Magro e sujo. Aceitou a ração, mas virou uma ferinha quando me aproximei. Mostrou os dentes. Bateu a patinha. Já entendia que precisava se defender. Recuei. Sentei no chão. Esperei que ele comesse. Dei água. Chegou mais perto. Joguei grãos de ração dentro da caixa de transporte. Peguei! Os primeiros dois dias foram difíceis. Bravo, preso em um quarto que uso como escritório, o gatinho chorava alto. Me olhava com medo e raiva. Conversei, explicando que não queria fazer mal. Que eu lamentava aquelas emoções ruins que ele sentia naquele momento. Que logo ficaria melhor. No final da tarde do segundo dia, se esfregou em mim. Na manhã do terceiro dia, veio no meu colo. Me retirei de uma posição de superioridade humana e indiquei que ele estava seguro. Gatos não são malvados e traiçoeiros. Apenas reagem a como são recebidos e tratados. Assim, minha família cresceu com a chegada, há um mês, de Prince Gingerbread. Um machinho de 5 meses, que ama a Charlotte (é recíproco) e segue no jogo da conquista com a Jeannie (que gosta dele, mas mostra quem é que manda). Meu objetivo era resgatá-lo e doá-lo. Na primeira vez no meu colo, segurou meu rosto com as patinhas, como quem diz “muito obrigado”. Ganhou. No dia de seu resgate, 13 de março, eu celebrava meu primeiro mês de alimentação praticamente sem proteína animal. Ainda como ovos e, caso esteja na rua e não encontre outra opção, acabo comendo algo com queijo. Um processo iniciado em 2017, quando cortei embutidos, e que coincide com a chegada da Charlotte na minha vida. A experiência de conviver com minha filhotona me ensinou a enxergar quanto nossos hábitos resultam no sofrimento animal. Três anos depois, com a chegada da Jeannie, tornou-se evidente: elas sentem alegria, tristeza, dor, alívio, ciúmes, raiva, medo, vergonha, amor, carinho. São seres sencientes. Sentem tudo de maneira consciente. E se são conscientes, outros animais também. Inclusive aqueles que colocamos no prato. Transformar a alimentação não é simples. Entendo que em contextos de fome, por exemplo, não há como questionar quem tiver a chance de comer um bife, dar um copo de leite a um filho. Mas, além de infligir dor a outras espécies, precisamos analisar dados alarmantes relacionados ao consumo de proteína animal. De doenças derivadas desse consumo aos impactos ambientais, tem muita coisa para nos preocuparmos. Construí uma alimentação não apenas saudável, mas extremamente saborosa. Também busquei informação de qualidade na internet. Gostei de seguir no Instagram a ONG Veganuary Brasil, que propõe todos os anos o desafio de um janeiro vegano. Eles dão um enorme suporte com e-book de receitas, newsletter com dados ambientais e de saúde, indicando celebridades e atletas que contam como é ser vegano. Sempre ressaltando que tudo bem não conseguir de cara seguir à risca as mudanças propostas. O mercado está se adaptando. Almocei dia desses com meus pais em um restaurante árabe de Santos que indicava, com plaquinhas no bufê, opções vegetarianas. Na próxima vez que você olhar com afeto para seu pet, pense como seria vê-lo feito um boi no rolete. E não basta se culpar. Parta para a ação. Evite carne algumas vezes por semana. Diminua o tamanho das porções. Aprenda a cozinhar legumes, grãos, verduras de maneira variada. É possível. É saudável. Salva vidas. Se de quebra tirar mais um animalzinho da rua, compreendendo que não é um brinquedo que se descarta ao menor sinal de desafio, estará completa a tríade amor, paciência e evolução. Um ser humano que merece ser adotado por um bichinho.