[[legacy_image_294238]] Em uma tarde destas de sol de verão, após uma tempestade esfriar o calor dos paralelepípedos, corremos atrás da bola esfolando os pés na disputa de gol caixote. De repente, escurece e avançamos na noite morna contando histórias de terror sob a guarda das enormes e velhas árvores do Clube Hípico. Você ficou com sono, deu um sorriso e atravessou a rua. E assim, me deixou sozinho ali naquele sonho. Desperto, caminhei até um espelho, passei a mão pelos cabelos ralos, já brancos; as rugas aparecendo no rosto e, intrigado, fiquei pensando sobre os mistérios dessas aventuras oníricas. O neurocientista Sidarta Ribeiro, na obra O Oráculo da Noite, afirma que o sonho é um simulacro da realidade feito de fragmentos de memórias. Seria possível, no entanto, que tudo isso pudesse ser uma forma de encantarmos o presente e o futuro? No meio-dia da vida, é comum convivermos com o luto e a saudade. Nos momentos em meio ao frenesi destes tempos de tanta pressa e urgência, nos pegamos como agora: olhando no espelho, sentindo a melancolia da ausência dos afetos, dos amores profundos, e perguntamos se o caminhar é, por fim, uma sucessão de despedidas, de gente querida dando adeus. A aventura da noite, ora, seria apenas um passeio nas frestas da memória? Sidarta salienta, no entanto, que os sonhos podem ser a própria fonte de nosso futuro: “O inconsciente é a soma de todas as nossas memórias e de todas as suas combinações possíveis. Compreende, portanto, muito mais do que o que formos – compreende tudo o que podemos ser”. Talvez, partindo desse pressuposto, o ideal é assumirmos uma outra relação com as nossas narrativas oníricas e isso parte de assumir um novo compromisso. O desafio é grande. A lógica do mundo industrial globalizado impôs uma rotina de trabalho que inviabiliza dormir de forma saudável. Estamos sempre correndo, freneticamente em busca de coisas que nem sabemos se, de fato, queremos. Crucial para o mal-estar da civilização contemporânea, como aponta Sidarta Ribeiro, a banalização do sono ainda encontra legitimidade em discursos motivacionais corporativos. Enquanto nós dormimos, eles fazem negócios, dizem. Olhar os sonhos como os povos ancestrais é um caminho para estabelecermos uma nova relação com as narrativas oníricas. O ativista, escritor e líder indígena Ailton Krenak ressalta que o sonho é um lugar de veiculação de afetos: “Afetos no vasto sentido da palavra. Não falo apenas da sua mãe e de seus irmãos, mas também de como o sonho afeta o mundo sensível; de como o ato de contá-lo é trazer conexões do mundo dos sonhos para o amanhecer; apresentá-lo aos seus convivas e transformar isso, na hora, em matéria intangível”. Partindo da reflexão de Krenak, é como se, ao contrário de sentir-me sozinho na frente do espelho, embriagado de melancolia e saudade, escolhesse pensar o sonho como um encantamento do presente e passagem para o mistério do futuro. Escolher transformar aquele adeus do querido amigo que veio brincar em um até breve. Abandonar tanto racionalismo, por um belo desejo de alimentar a possibilidade da eternidade em nós mesmos. Como diz Drummond, no poema Sonho de um Sonho:Sonhei que o sonho existianão dentro, fora de nós, e era tocá-lo e colhê-lo, e sem demora sorvê-lo,gastá-lo sem vão receiode quem um dia se gastara