[[legacy_image_194370]] Uma das promessas que fiz a mim mesma em tempos de isolamento social pandêmico foi a de me reaproximar do mar assim que estivesse vacinada. Não desejava apenas ir à praia caminhar ou dar um mergulho. Eu queria viver o mar, admirando mais de perto sua beleza, sempre respeitando sua força e honrando sua imensidão. Seria parte do meu processo de reconexão com o mundo, de lembrar de estar presente. Porque depois a gente nunca sabe: muito pode se acabar num estalar de dedos. No final de 2021, vi um stories no Instagram da Ana Tereza, minha amiga da época da faculdade, fazendo stand up paddle no Canto do Forte, em Praia Grande. Ela deslizava fácil e elegante na água, pra lá e prá cá. “Aninha, é difícil isso? Me leva com você em uma aula para eu tentar?” Em janeiro deste ano, lá estava eu, ainda ajoelhada na prancha, aprendendo a remar sob supervisão e paciência do Lucas, meu professor, e na companhia da Ana. Lembro exatamente a sensação daquele dia: perceber o barulho da cidade ficando atrás do quebrar das ondas, ouvir o canto dos pássaros na mata ao final da praia, e o som dos saltos repentinos dos peixes na superfície. Estava apaixonada. Decidi que o stand up se tornaria parte do meu estilo de vida. Ajudou muito ter mar calmo com cara de piscina, permitindo que eu ficasse de pé na prancha logo de primeira. Autoconfiante demais, me achei toda dominadora do oceano, rainha das remadas coordenadas. Até a aula no mar gelado e mexido do inverno… Julho chegou junto com as férias e marquei minhas aulas. Ana e Lucas me acompanhando novamente. Dessa vez, fomos no final da tarde para ver o pôr do sol, o que já está no meu top dez de experiências. E no quintal de casa! Notei que foi mais difícil entrar no mar. Ultrapassadas as ondas revoltas, tudo certo. Demorei mais para ficar em pé na prancha, mas fiquei. Só que, trabalhada na tal da autoconfiança em excesso, demorei para sentir as ondas e me adaptar a elas como o Lucas ensinava. Continuei remando como no mar do verão, sem respeitar o que o oceano queria dizer. Nada perigoso. Mas desconfortável por alguns bons minutos de estranhamento com ondas mais altas. “Espera a onda passar, só espera”, dizia o Lucas, tranquilo e seguro. Demorei para aceitar a sensação de deixar a onda passar. Parei de respirar direito como sempre faço nos momentos de tensão ou quando penso demais em alguma coisa. Até chegar à beira do mar, a saída teve ondas cada vez mais velozes, empurrando a prancha mais rapidamente. “Essa é a última onda e vai ser forte, você vai chegar na praia. Senta na prancha. E agora, sim, rema, Su!!! Rema, rema, rema!!!”, dizia Lucas, com a voz mais alta e distante rivalizando com a energia da onda que quebra. Deu certo. Não molhei nem o cabelo! Olhei para trás e era noite. Fiquei fascinada e corri para abraçar minha amiga na areia. Mas pensei nas vezes em que não espero a onda passar. Quando insisto em remar do jeito que eu quero, acreditando que vou controlar a situação. A força da remada é sempre proporcional ao tipo de onda. Querer controlar tira o equilíbrio e pode levar à queda. O que não significa evitar ondas fortes, aquelas que a princípio tiram a perspectiva, mas empurram a gente longe, na direção certa. O segredo é aceitar a onda chegar, surfar e se deixar levar. Seja no mar, seja na vida.