(Adobe Stock) Peguei o par. Devagar. Olhos brilhando, relembrando a emoção do dia da compra. Loja cara. Para comemorar a promoção que eu recebera na revista em que trabalhava. Faz tempo. Meus sapatos de salto preferidos, azul Bic, me encararam como quem reclama e pergunta: por que estamos aqui encostados? Sempre disse que nos amava? Era mentira esse amor? Jamais. Foi dos amores mais sinceros. Tanto que naquela noite de sábado, convencida pela minha amiga Adriana (a Pimenta, que vocês também leem aqui aos domingos), a acompanhá-la no show dos Titãs - e confirmando que a gente ficaria sentada durante o espetáculo - foi a primeira decisão que tomei: vamos voltar a se equilibrar no salto, garota, pelo menos por algumas poucas horas. Como se anda mesmo com isso? Tem que dar aquela soltadinha de quadril, uma leve rebolada. Não para ser sexy. Para conseguir ficar em pé mesmo. Não recordo a última vez que usei sapatos de salto. Acho que foi no casamento da Ligia, outra amiga, que agora tem o bebê Ben e mora com a família nos Estados Unidos. Há uns dois anos, com certeza. Às vezes, sento na frente da sapateira do guarda-roupa e fico admirando todos eles. Meu momento Carrie Bradshaw. Sem closet. Sem Manolos, Louboutins e Jimmy Choos. Mas adorei usar cada um antes de dores na coluna, no joelho, de repuxada de nervo ciático. Já são menos, doei vários. Há os que não consigo imaginar me desfazer. Tenho até o da formatura da faculdade. É besta, é egoísta. Eu sei. Mas olhá-los tem o mesmo encanto de quando eu era pequena e via a coleção de sapatos da minha mãe. E senhoras e senhores, se alguém tinha uma coleção de sapatos de respeito, era mamãe. Muitos dos meus sapatos nem comprei. Pegava dela emprestado. Não devolvia nunca mais. Filhas são assim com os sapatos das mães. Alguns ela me dava mesmo, resignada, porque sabia que eu pegaria de qualquer jeito. Outros só não queria mais - eu achava ótimo. Me presenteou com muitos, sem nunca errar meu gosto e me deixando tão fascinada quanto colocar os então pezinhos pequenos em seus scarpins - uma das minhas mais vivas memórias de infância. Até hoje a gente fala do meu sapatinho do Barbapapa, personagem de um desenho dos anos 1970 que assisti na TV, em reprises. Cresci, meu pé também. Mas não queria deixar de usar os sapatinhos. Eram de pano. A mãe diz que calcei o parzinho até fazer um furo com o dedão e, finalmente, ser convencida a me separar deles. Provavelmente, minha primeira decisão difícil na vida. No final da noite, depois do show, notei que a sola dos saltos se desfez. Sapato sem uso dá nisso. Achei graça. Em casa, por volta da uma da manhã, sentada no chão da sala, eu olhava o lindo salto vírgula de madeira. Sigo apaixonada. Ganhará solas novas. E uso comedido. Mas em uso. O sinal do destino é que acordei sem dor e fui caminhar domingo de manhã sem me arrastar pelas pracinhas do bairro. Com cuidado, tudo continua sendo possível. Ah! E a cor dos sapatinhos do Barbapapa? Azul Bic. P.S.: assim como os sapatos de Carrie em Sex and The City (série que começou em 1998 e terminou em 2004, em alta novamente nos streamings), a música de abertura do compositor americano Douglas J Cuomo, um jazz latino que a gente logo dá uma dançadinha, é inconfundível. Aliás, vale ouvir as trilhas sonoras das temporadas enquanto arruma, limpa e namora seus sapatos.