[[legacy_image_220377]] Quando outubro começou, tive a certeza de que em mais alguns dias não haveria como renovar meu visto. Primeiro porque não era possível fazer como no ano passado, em que, devido ao distanciamento social exigido pela pandemia, pudemos fazer tudo on-line. Tentei algumas vezes e o sistema negou. Depois de algumas horas de tentativas frustradas de contato com o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), uma atendente ouviu minhas dúvidas, por telefone. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! - Não, senhora. Não temos previsão de data para agendamentos, pois o serviço está superlotado de pedidos. A previsão para atendimento de pedidos aceitos, neste momento, é de, em média, dois anos. - Dois anos!? E como eu faço se quiser visitar os meus pais nesse período? - A senhora pode ir... mas pode não conseguir autorização para entrar novamente em Portugal. Desliguei o telefone sem acreditar direito no que tinha acabado de ouvir. Corri para a internet e fui ler as notícias, os posts dos blogs que sigo, assinados por brasileiros que vivem em Portugal e que dão dicas para que os perrengues que passamos sejam menos áridos. Todos confirmaram o que a atendente portuguesa do SEF havia me dito: média de dois anos de espera para atendimentos no serviço. E agora? Aquilo significava ter que fazer uma escolha: mais dois anos sem poder ir ao Brasil ou ir ao Brasil e deixar tudo para trás em Portugal – trabalho, relacionamento, amigos... Bateram os cinco minutos de desespero. E depois, eu respirei fundo para tentar pensar em todas as alternativas possíveis. Emendar o doutorado e continuar com visto de estudante... ou mudar o visto de estudante para o de trabalhador, já que eu tenho um contrato de trabalho. Mas todas as saídas me levavam exatamente ao mesmo ponto: eu precisava ao menos do agendamento do SEF. E isso nem os próprios atendentes tinham previsão de quando se daria. Achei que o fim do mestrado me deixaria livre, mas, na verdade, só me deixaria ainda mais presa a Portugal. Que sentimento ruim! Eu adoro estar aqui, mas ficar sem ver minha família e amigos do Brasil por mais dois anos seria demais para mim! Precisava desabafar e o ouvido mais próximo era o do namorado. Ele escutou com atenção e lançou a pergunta: - E se nós nos casarmos? Fiquei em silêncio por alguns segundos. Ele já tinha feito a proposta, mas sempre me soava em tom de brincadeira e assim, nesse mesmo tom, eu também respondia. A resposta foi sempre sim, mas um sim sem compromisso com o tempo. No fundo, ambos esperávamos maior estabilidade financeira e... a primavera. Diante dos segundos de silêncio, ele continuou: - Que fique claro que não estou “a fazer” o pedido só por isso. Seria apenas um adiantamento do que já tínhamos planejado, tu sabes... Eu já tinha pedido-te antes e... - ... E eu já tinha dito que sim... É claro que é sim! Selamos o pedido com um beijo, sentados na cama, num fim de tarde de outono, em frente a um notebook cheio de abas abertas com sites em que buscava alternativas para que eu não tivesse que fazer nenhuma escolha amarga. Somente não esperava que o que me salvaria seria uma escolha tão doce. Mas, com o tempo como inimigo, não seria um doce tão fácil de desfrutar. Em breve, conto como essa saga continua.