[[legacy_image_260658]] Em tempos em que, muitas vezes, a realidade é mais ridícula do que a ficção, chocar com a burrice e a ignorância é algo bem difícil. Está aí a razão de O Mundo por Philomena Cunk, documentário fake que acaba de estrear na Netflix, carregar tanto nas tintas. O suposto programa sobre a história do mundo tem apresentadora que não sabe o que perguntar, crê em teorias conspiratórias, acha que as pirâmides têm o formato que têm para que a água não acumule no telhado, confunde Lenin com Lennon e cita a frase “dance como se ninguém estivesse assistindo” como sendo do filósofo Aristóteles. No pretenso show, seguimos Philomena Cunk enquanto ela conta, de forma cômica, as histórias das maiores invenções da humanidade e faz perguntas difíceis para os especialistas sobre o progresso e a história do mundo. Passeamos entre as pinturas rupestres nas cavernas da pré-história até os faraós do antigo Egito e outros momentos-chave de nossa história, sempre de uma maneira muito espirituosa. À primeira vista, nada tem tanto sentido. Mas a produção é uma crítica feroz (e muito bem-humorada) à epidemia mais perigosa pela qual nosso planeta passa: a da burrice orgulhosa. Além disso, tira sarro de praticamente todos os documentários históricos a que você já assistiu. Philomena Cunk (interpretada pela atriz Diane Morgan) conversa com especialistas de grandes universidades europeias sobre temas como história e ciência usando argumentos toscos, achismos sem qualquer base científica e vídeos de YouTube. Em um certo momento, por exemplo, ela discute com uma historiadora a respeito dos atletas gregos disputarem os primeiros jogos olímpicos sem roupa, questionando se não haveria uma forma de impedir a plateia de ver as partes íntimas dos competidores. Em outra entrevista, teima com uma matemática que os números terminam em 700 e que depois disso tudo se repete, mudando-se apenas os nomes para enganar as pessoas. O tipo de teoria que alguém geralmente consideraria absurda, mas que, dependendo do caso, pode encontrar bastante eco, ainda mais nos dias atuais e com as fake news. Enfim, a coisa é tão constrangedora que acaba provocando risos. Ou não. Afinal, quantas pessoas conhecemos hoje que pensam e agem assim, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo? Existem milhões de Philomenas ao redor do planeta, negando a ciência, acreditando em quem não tem nenhuma credencial séria, mas que abriu um canal no YouTube! São estes – e os seus seguidores – justamente os alvos do programa recém-disponibilizado no catálogo da Netflix. Já os especialistas (todos verdadeiros) foram avisados, antes do início das gravações, de que se tratava de uma falsa entrevista, mas, mesmo assim, foram orientados a agir da forma mais séria e respeitosa possível e a não fazerem as suas próprias piadas, por mais difícil que seja o desafio. Eles também foram orientados a tratar Philomena como uma criança. O Mundo por Philomena Cunk é produzido pela britânica BBC e tem como criador Charlie Brooker, que é responsável por um grande sucesso da televisão nos últimos anos: a série distópica Black Mirror. Vale dizer que a personagem que comanda a atração da Netflix não é exatamente nova. Ela surgiu em 2013, em um outro programa do próprio Brooker: Weekly Wipe. Na época, pelo papel de Philomena Cunk, Diane Morgan foi indicada a diversos prêmios, mais do que merecidos. Ela consegue personificar com maestria o tipo de gente que acha que pode apresentar um programa sobre história sem ter estudado a respeito. É preciso gostar desse tipo de humor, mais mordaz e muitíssimo britânico, para entrar no espírito da produção e curtir. Eu gostei bastante, mas enfrentei a oposição feroz da minha namorada, quando disse que escreveria sobre ela aqui no jornal. Se você se divertiu assistindo a Borat, gosta de programas como o clássico Monty Python’s Flying Circus e acha que o humor é a forma mais feroz e efetiva de crítica, veja!!!