[[legacy_image_280032]] “Guerreira é a Xena. Eu tô cansada”. Bati o olho na foto da caneca que traz essas frases no Instagram do Instituto de Pesquisa & Estudos do Feminino e das Existências Múltiplas (Ipefem). Me senti representada. Não apenas porque era um dia em que estava extremamente cansada. Mas porque sou de uma geração de mulheres que por muito tempo achou bonito, um elogio mesmo, ser chamada de guerreira. Não sei nem se a Xena, a princesa guerreira de um seriado de televisão de meados dos anos 1990, faria questão do título hoje. A ideia da mulher guerreira surgiu para designar aquela que dá conta de tudo, supera tudo. Especialmente calada. Como um virtuosismo do papel feminino. Entram aí desde as triplas jornadas, trabalhando fora, cuidando de casa e da família, até o aceitar salários mais baixos, assédios, traições, violências. Nessa de congratulações pela força excepcional com que lida com a vida, de aceitar o seu “destino”, a mulher guerreira afundou em quadros de exaustão física e emocional, de ansiedade e depressão, irritabilidade e estresse. E ai dela se reclama. Ai dela se pede ajuda e impõe limites. De louca a ingrata, de incompetente a fraca, não faltarão os piores adjetivos para classificá-la. Como não consegue? Mas poucas coisas me irritam mais do que esse mito supervalorizado vir de quem quer dar solução para realidades que desconhece. Isso inclui outras mulheres. Há alguns anos, participei de uma reunião na Avenida Faria Lima, endereço nobre da cidade de São Paulo, com grupos de mulheres que trabalhavam de diferentes formas pelo empoderamento feminino. Em dado momento, falou-se sobre as mulheres da periferia. Nenhuma das presentes vinha ou estava nesse lugar. Uma das participantes defendeu, com voz impostada, que a mulher da periferia “aguentava sim, porque ela é guerreira e nunca para”. Perguntei se não seria justamente esse o motivo do sofrimento dela. Ficou brava a moça, pós-graduada, branca, cujo único contato com a periferia era com aquela que trabalhava na casa de seus pais como empregada doméstica. Esse é um erro de que feministas brancas e de espaços privilegiados precisam cuidar. Por enxergarem como resposta para tudo sua própria bolha, desconsiderando particularidades da vasta variável que é o universo feminino e diversas opressões que o atravessam além do gênero – como raça, classe, etnia. Em outra ocasião, representantes de uma ONG se queixavam que, em conversa com mulheres que trabalhavam no setor de limpeza de uma rede de supermercados, poucas se interessaram em retomar os estudos. Não havia plano que encaixasse aulas em seus cotidianos. Apenas palestras motivacionais sobre o tema. Será que alguém pensou na extensa jornada de trabalho desse público, com cerca de três ou mais horas perdidas no transporte público? Que ainda cuidam das próprias casas? Que aprenderam a conviver com todo tipo de dor física? Incentivar os estudos para todas as pessoas é primordial. Mas, se uma proposta não vem junto com condições realistas, fica parada no discurso heroico. Ser guerreira é abdicar de si mesma, se colocar em último lugar. Vamos acolher umas às outras, abrindo campo para entender o que realmente cada uma precisa, dentro de seus contextos. Não temos que ser mais fortes porque para as mulheres o mundo é mais difícil. O mundo é que precisa melhorar para deixarmos de lado tantas armaduras.